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quarta-feira, 14 de agosto de 2013

As Crônicas de Folsom - Passos Perdidos

            Estava escuro. Muito escuro. Luana havia se perdido naquela floresta. Escuridão total. Olhava para o céu. Não havia estrelas. Não havia Lua. Apenas o negro, o vazio, a imensidão do nada. Olhava para frente. Nada. Olhava para o chão. Nem os pés enxergava. Sabia que eles estavam ali, todavia. Sabia disso porque doíam. Perdera a noção do quanto andou por lá. Curiosamente não conseguia lembrar quando se perdeu, e nem como se perdeu. Recordava de estar ali, perdida. Entretanto, não era amnésia. Lembrava do seu nome, da sua idade, de como era quando tinha dez anos, quatorze anos, dezesseis e dezoito anos, de suas alegrias, sonhos, desejos... Enfim, tinha plena ciência de suas memórias.
            No entanto, não sabia onde estava ou para onde ia. Esbarrou em uma árvore. Levou as mãos ao rosto, tateando-o para se certificar de que tudo estava onde deveria estar. Sentou-se. Continuava com as mãos no rosto. Começou a chorar. Soluçava a pobre alma. Desespero e exaustão vertiam por aqueles lindos olhos castanhos, acompanhando as lágrimas.
            Após um tempo que não conseguia precisar, acalmou-se. O choro aliviara um pouco a alma. Concentrou-se para tentar acostumar os sentidos à escuridão. Percebeu que o lugar era mais macabro do que pensara. Tinha certeza de que se tratava de uma floresta – ou bosque -, pois lembrava de adentrá-la, daquela entrada macabra, onde as árvores formavam uma espécie de passagem, levando a um corredor sombrio, que a cada passo escurecia. Logo em seguida tentou fazer o caminho inverso, porém, não encontrou mais a saída. Tendo essa certeza de que se encontrava em uma espécie de bosque, não conseguia escutar os sons da fauna. Na verdade os únicos sons que conseguia ouvir eram o do vento agitando as árvores, e os seus passos. Percebeu, assim que inspirou com força, que, gradualmente, seus sentidos estavam lhe falhando. O cheiro forte e penetrante do capim e da terra, agora não passavam de leves fragrâncias sentidas a uma distância considerável. Não sentia mais o contato de suas mãos em seu rosto. Sua boca, agora, era como um grande buraco recheado de nada. Nem a saliva sentia. Tocou sua língua. Ou, pelo menos, pensava ter feito isso. Nada. Silêncio. Silêncio... Silêncio... Não lembrava de jamais ter testemunhado tamanha ausência de ruídos, então, gritou a plenos pulmões. Ou pelo menos fez os movimentos... Ou não. Simplesmente não sabia se havia obtido êxito. Não sabia mais se estava sentada, se estava deitada ou de pé. O que lhe confirmava que ainda existia era sua capacidade de pensar. Tinha consciência. Tinha medo, pavor, desespero... Lembrou-se novamente de seus sonhos, de seus desejos... De suas ânsias...
            Mais uma vez perdeu a noção do tempo. Com o que restou de sua existência, ordenou que suas pernas se movessem. Ainda não sabia se a ação tornou-se concreta ou se era apenas uma mera abstração de um sopro de ser. Talvez sim, talvez não. Não esbarrou em nada, pelo menos. Será?
            Acreditava que andava. Já sem esperanças, as mágoas, arrependimentos... Tudo o que havia deixado de fazer, o que fez e jamais queria ter feito, passavam em sua mente como um filme. Pedia perdão, mas não obtia resposta. Suplicava. Ainda sem resposta.
            Inimagináveis e imensuráveis momentos depois decidiu que “tanto fazia”. Havia fugido durante toda a vida daquilo tudo e, quando chegou ao ponto de implorar o perdão divino, ficara sem uma maldita resposta. Relembrou outra vez seus sonhos e seus desejos. Agarrou-se ferrenhamente a eles. Sentiu que algo mudava dentro de si e ao seu redor.
            Continuava sem enxergar nada, mas o som... Os sons, melhor dizendo, voltavam lentamente. Sentiu um leve cheiro de terra molhada. Em seguida, o do capim. Dormência. O corpo todo estava dormente agora, formigava.
            Passos. Escutou passos. De todos as direções. Inclusive acima e abaixo de si.
            Ao seu redor, uma luz começou a brilhar. Conseguia enxergar parcamente o que havia a sua frente. Apenas borrões que, aos poucos, tornavam-se nítidos. Visualizou uma silhueta a sua frente. Ela projetava uma sombra enorme no chão. A imagem dele e de tudo o que ele representa para si se formava em sua mente. Rápida e surrealmente a distância entre ele e ela aumentou, tornando-o apenas uma mancha em uma clareira ao longe.
            Luana começou a correr. Corria desesperadamente. Finalmente achou o caminho. Agora era um belo dia e, à medida que avançava, a floresta ia ficando para trás, o céu azul se tornava perceptível acima da copa das árvores. Todos os sons da fauna que aquele bosque podia conter também passaram a serem pronunciados, acompanhando o desesperador ruído do vento e dos passos.
            Via ele ao longe. Por mais rápido que corresse, a aproximação era lenta. Beirando a exaustão, lembrou-se outra vez de seus sonhos e de seus desejos, principalmente do último: o de estar ao lado dele. Encontrou as energias necessárias e se pôs novamente a correr.
            - Finalmente! Finalmente te alcancei! – Disse a garota exausta ao chegar perto do rapaz. Exausta e eufórica.
            - Que pena que chegasse só agora... – Ele respondeu.
            - Como assim? – Indaga sem entender o que se passava.
            - É que eu preciso subir aquela colina agora. – E disparou a toda velocidade.

            Luana ficou ali. Parada. Sentindo as pernas tremerem. E sem olhar para trás, ele a abandonou, levando consigo todos os sonhos, desejos e memórias.


*Baseado em "Montreal - Passos Perdidos"

terça-feira, 6 de agosto de 2013

As Crônicas de Folsom - Fonográfica (pt.2 de 2)

            - Onde estávamos? – perguntou Frank.
            - Ias me falar quem teria interesse na morte do cara.
            - Os donos dos artistas, Jack. As gravadoras.
            - Aahh... Mas continuo sem entender o motivo de matar... Não tenho nada o que ver com isso, porém apenas não entendo.
            - Você já estudou na escola sobre aqueles grandes pintores antigos, como Picasso, Da Vinci e companhia, certo?
            - Faz tempo...
            - Não importa. Tu sabes que a maioria desses caras viveu num certo ostracismo, certo?
            - É...
            - E que os quadros deles, quando eram vivos, não valiam um tostão furado. Os que ficaram famosos ainda vivos conseguiam vender suas pinturas por uma boa quantia, mas... Sabe o valor da Monalisa?
            - Nem ideia.
            - Bem, eu posso te assegurar que não cabe num cheque, por causa dos zeros.
            - Acho que estou começando a entender.
            - Isso mesmo. O fato de matar o infeliz... No mundo artístico não funciona do mesmo jeito que no nosso – fez um gesto com os dedos indicando aspas – mundo. O Jack morre, e não temos mais o nosso melhor profissional. Ficaríamos desfalcados. Agora no Showbusiness... Ninguém vai substituir o polaco e é isso que eles querem mesmo. Já imaginou o que eles não vão ganhar com álbuns póstumos, as famosas faixas perdidas do álbum tal, coletâneas, camisetas, filmes, livros...
            - Mas a lei não dá direito dos lucros para a família dele e etc?
            - Como que tu achas que eu consegui a chave da casa dele?
            - Tá me dizendo que a mulher dele...
            - É isso aí... Pelo que eu soube, eles dividiram a grana e, com certeza, isso vai dar merda mais pra frente, entretanto, como eu te disse anteriormente, não nos interessa. Fomos contratados para executar. O problema é deles se der errado.
            - Nunca cogitou que, na hora do aperto, caso uma coisa dessas viesse à tona, eles mandassem fogo pra cima da companhia? – Frank deu uma risada.
            - Jack... Jack... Eles não seriam loucos... Sempre tem alguém querendo ganhar alguma coisa em cima de alguém... E se eles se fresquearem um dia... Nós conhecemos caras como você que aceitariam fazer um belo serviço. E eles sabem disso.
            - E se alguém se recusar? – Frank parou e abriu um sorriso malicioso para o assassino.
            - Nós sabemos onde vocês moram.
            Jack tentou esconder com um sorriso amarelo que a sutil ameaça havia surtido efeito. Por sorte a garçonete chegou trazendo seus pedidos. Ambos comeram em silêncio. Frank fumou mais um cigarro, então entregou um pacote para o algoz, uma nota de vinte dólares para o café mais a gorjeta para a garçonete/fã abalada pela morte do ídolo, como um alento ao sofrimento da pobre menina, depois, levantou e saiu. Jack pegou o jornal e começou a ler.
            Queria ter podido estourar os miolos do gordo presunçoso, mas estava satisfeito. O dinheiro daria para passar o ano sem se preocupar muito. Olhou os classificados, procurando se tinha algum emprego interessante. Não achou nada.

Levantou e foi embora.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

As Crônicas de Folsom - Fonográfica (pt. 1 de 2)

            Jack havia chegado em casa depois de um longo dia no trabalho. Era tarde da noite. Os filhos, Brenda e J.J. já estavam dormindo. Largou a pasta em cima do console, que fica ao lado da porta de entrada, e o sobretudo no cabideiro. Era início de abril, o que significa que a primavera estava recém começando em Seattle, não que isso queira dizer muita coisa, afinal, temperaturas baixas são constantes, mas nada que o sistema de calefação da casa não pudesse resolver. Jack largou as chaves também em cima do console e começou a subir as escadas, tentando fazer com que os passos exaustos e pesados não acordassem as crianças.
            Chegando ao segundo andar, notou que a porta do seu quarto estava aberta e que o inconfundível brilho de uma TV acesa num ambiente escuro pulsava. Com calma foi até lá e encontrou a esposa – Mônica – adormecida sobre a cama. Chegou ao batente da porta, escorou-se e amaldiçoou-se pela falta de sorte. A bela morena, que manteve o corpo esbelto e sensual, mesmo após duas gravidezes, esperava por seu marido, vestindo uma lingerie nova. Era uma baby doll branca de seda e a calcinha, também branca, de rendinha. Ela até estava usando uma gargantilha preta, o acessório favorito de Jack. Tudo indicava que a noite seria daquelas para serem lembradas... Frustrado, tomou seu banho, amaldiçoou o merda do cantorzinho que teve que matar, e teve que contentar-se em dormir de conchinha com a esposa.
            No dia seguinte, Jack aguardava Frank no lugar combinado: um café defronte a estátua de Jimi Hendrix, mas na calçada oposta. O lugar estava movimentado, como sempre, e Jack estava ficando sem paciência com o atraso do contratante.
            - Fez um belo trabalho, heim, Jack. – Frank largou o jornal do dia com a manchete principal “Astro do Rock é encontrado morto na própria casa” em cima da mesa. Jack consultou o relógio e não fez questão de olhar para o homem.
            - Está atrasado.
            - E daí? O interesse é todo seu, meu camarada.
            - Trouxe a grana? – ignorou o comentário do sujeito baixo, gordo e com uma careca bem no topo da cabeça, rodeada por ralos fios loiros, que trajava uma jaqueta azul marinho.
            - E alguma vez eu esqueci?
            - Por que demorou?
            - Está brincando, certo? – Frank se sentou, tateou os bolsos atrás do maço de cigarros e do isqueiro, acendeu, deu uma baforada para o alto, se inclinou e baixou o tom de voz, enquanto Jack sorvia um gole de café. – Você acaba de matar o maior astro rock da atualidade, febre mundial dos últimos cinco anos e não quer que eu não pegue um congestionamento de trânsito devido a manifestos de luto protagonizados pelo seu bando de fãs retardados?
            - Eu não peguei engarrafamento nenhum.
            - Ah, não me amola, Jack. Como eu disse, o interesse é todo seu. Você é quem tem que esperar eu chegar com a grana, que não é pouca, diga-se de passagem.
            - Escuta aqui, seu gordo careca de merda, ontem eu perdi o que foi, provavelmente, uma das melhores fodas que eu daria com a minha esposa por causa desse polaquinho de merda que vocês quiseram enterrar. – Frank começou a rir.
            - Calma, Jack. Calma... Não desconte em mim... Eu sou o cara das boas notícias, lembra? Eu te dou o recado e te recompenso pelo seu belo trabalho. Olha, o cara que tinha que morrer... A culpa é dele que você não comeu a sua mulher e... Veja bem, você já se vingou dele antecipadamente, e eu estou te pagando por isso. – Jack não pôde deixar de concordar com o homem, inclusive amoleceu a expressão do seu rosto. – Isso, agora está melhor... – emendou ao ver a expressão se afrouxar - Olha, vou deixar ainda melhor. Escolhe o que quiseres pra comer. Nós pagamos. Fica por conta da Fonográfica. Que tal?
            - Certo, Frank... Tudo bem... Mas, eu não entendo, cara... Se o sujeito era tão bom, porque vocês decidiram matá-lo? Agora ele, obviamente, não vai mais poder fazer nada novo, entende?
            - Olha, eu não devia te contar isso, cara, porém, nos conhecemos já faz dez anos... Não vejo problemas... Enfim, vamos lá: a verdade é que, não nos interessa.
            - Como assim?
            - Jack, não somos nós quem decide quem morre. Nós somos que nem você, meu camarada. Nós somos apenas o fragmento que age. Quem decide são os próprios donos desses sujeitos.

            - Não estou entendo. – Uma garçonete se aproximava, os homens trocaram o assunto por outro cheio de trivialidades para disfarçar. A menina, loira, dezesseis anos, usando uma camiseta preta com o rosto do cantor assassinado, estava visivelmente abatida e perguntou o que ambos iriam comer. Jack pediu um sanduíche de carne e Frank apenas um café bem forte. Ambos tiveram que repetir, porque ela não parecia prestar atenção. Só quando tiveram certeza de que ela não poderia ouvi-los, retomaram a conversa.

terça-feira, 9 de abril de 2013

As Crônicas de Folsom - A estrada de ferro pt. 3 de 3

            - Eu estou em um trem? É isso? – Perguntou para aquela figura infernal que sorria exibindo, no mínimo, o triplo de dentes que um ser humano possui, sendo todos pontiagudos e perfeitamente (e assustadoramente) brancos.
            - Isso mesmo, gênio! – Zombou e caiu numa gargalhada grave e desprovida de senso de humor genuíno. Era algo mais compulsivo e insano, mostrando a Billy que era a mesma que ele ouvia anteriormente e encerrando o mistério de sua origem.
            - Mas o que diabos eu estou fazendo aqui?! Eu estava no meu caminhão e...
            - Com licença, senhor. – alguém lhe falou enquanto cutucava o seu ombro direito por trás. Era possível sentir o fio de uma garra afiadíssima. Billy girou sobressaltadamente sobre seus calcanhares e viu um homem trajando um smoking negro finíssimo, gravata borboleta, cabelo e barba aparados impecavelmente... Porém sua pele era tão pálida que chegava próxima a uma tonalidade azulada. Tinha os olhos totalmente negros e as garras, que agora se revelavam presentes em cada um dos seus seis dedos das duas mãos, tinham todas uma tonalidade escarlate e um brilho que, ao oposto do que a cor sugeria, carregava uma sensação gelada que subia pela espinha de qualquer um. – O senhor gostaria de um charuto ou de alguma bebida? – Perguntou com um tom convincentemente e extremamente educado e sincero. Sua voz era suave mas penetrante. Não se podia dizer se era uma voz grave ou aguda de mais. Era um equilíbrio perfeito.
            - Mas, afinal, onde estou? – Só conseguiu pensar nisso.
            - O senhor se encontra na ferrovia Thunder Dope. Estamos a bordo do Caronte III a caminho do Styx. – e lhe sugeriu o charuto e uma garrafa de licor. Billy estacou por um momento sem dizer nada.
            Nessa fração de mudez, só se ouvia a gargalhada daquela criatura que utilizava roupas de maquinista.
            Então, Billy deu de ombros e pegou um dos charutos e a garrafa.
            - E quem é você? O Diabo, eu presumo...
            - Oh, não senhor, não... Sou apenas um humilde condutor... – E estalou os dedos. Na escuridão do fundo do vagão, abriu-se uma porta. Selvagens labaredas lambiam o vão da mesma, cuspindo de suas entranhas uma silhueta que se aproxima a passos hesitantes. Um par de saltos altos ressoava. Era possível distinguir que os contornos pertenciam a uma mulher e, gargalhadas depois, que já haviam saído da zona do “aterrorizante” e caminhado, diferentemente da mulher, a passos largos e decididos para a margem do “irritante”, podia-se distinguir os seus traços com detalhes.
            Era uma jovem com cabelos ruivos – laranjas como carvão em brasa. Seus olhos verdes como esmeraldas exibiam uma expressão de profunda agonia e manchas de lágrimas de sangue, já negro, pútrido e coagulado, escorriam dos olhos até a ponta do queixo. No entanto, ostentava um lindo sorriso. Dir-se-ia que era a mulher mais feliz do mundo. Entretanto, fungava e soluçava como fazem os chorosos, o que tornava o sorriso algo misticamente congelado e amarelo. Vestia um collant preto, saltos altos, uma gargantilha com espinhos de ossos, e possuía um lindo corpo. Diferente do maquinista e do condutor, tinha um aspecto totalmente humano. Em suas mãos, carregava uma bandeja de prata com uma caixa de charutos, whisky, absinto, vodka e toda a sorte de copos.
            - Essa é Sabrina. Ela será a sua garçonete. Estará eternamente a sua disposição.
            Billy arqueou as sobrancelhas exibindo toda a sua surpresa e deu uma boa examinada na moça.
            - Para o que eu quiser? – Perguntou.
            - Para o que quiser. – Respondeu o condutor.

             Billy deu de ombros e sorriu. Só esperava que o inferno fosse um ótimo lugar.
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Inspirado nas canções "Estrada de ferro Thunder Dope", "Todo ódio da vingança de Jack Bufallo Head", "E tudo vai ficar pior" e "Quanto mais feio" do Matanza, e "I Still Miss Someone" de Johnny Cash

sexta-feira, 29 de março de 2013

As Crônicas de Folsom - A estrada de ferro pt. 2 de 3

            Viu-se de volta ao saloon. Dessa vez bebia. Bebia para esquecer Mary Ann. Sabia que jamais iria conseguir... Aqueles olhos azuis... Os via em toda a parte. Até hoje... Oh, Mary Ann... Era a mulher perfeita. Por que ele tinha que ter ido ao cabaré naquela noite? Era rotina já, sim, mas não confiou no seu instinto. Sempre confiava nele quando a situação ficava feia. Mas naquele dia... Mas a puta morena era muito gostosa...
            Ela tinha exagerado também, afinal, o adultério não era privilégio apenas seu, pensava. Sabia que ela dava seus pulos. Tanto que tinha despachado dois... Ou mais... Não lembrava ao certo, entretanto, pegou a todos no ato. Contudo, entendia porque ela fazia isso. Mary Ann, ao ser pega traindo, sentia-se mais amada do que nunca, pois sabia que Billy iria marcar o seu território. Iria tomar de volta para si o que era seu de direito. À força.
            Porém, a recíproca não era verdadeira. Ela jamais perdoaria a traição, ainda mais com uma puta.
            Oh, doce Mary Ann...
            Ao longe, ouviu o apito de um trem, mas a lembrança da amada, apesar de dolorosa, prendia-o ali.
            O apito aumentava.
            Oh, Mary Ann!
            Dessa vez o apito arrancou-o de lá e o arremessou de volta ao mundo dos despertos. Meio grogue por causa do litro de Jack Daniel's, do qual só sobrou a garrafa no chão da cabine do caminhão; do baseado caído sobre a enorme barriga, que acabou queimando a camisa antes de se apagar. Olhou em volta. A sua esquerda, viu uma luz muito forte, que o fez girar rapidamente a cabeça na direção oposta. O mundo girou mais rápido ainda, causando náuseas, e o apito, agora, era ensurdecedor. Quando tentou xingar a coisa e sentiu o vômito subindo-lhe a garganta.
            O caminhão tremia e estalava. Os ruídos eram como se estivesse dentro de um liquidificador cheio de pedras. O último apito, que ainda soava, tornava-se cada vez mais alto e já beirava a loucura. Então, um estrondo explode ao seu lado, arremessando-o violentamente para a direita. A porrada foi tão forte que apagou Billy instantaneamente.

            Ao acordar, estava em um lugar rodeado pela penumbra. Havia um círculo de luz a sua frente, como se fosse criado por velas, porém, por mais que procurasse, não conseguia encontrar a origem de tal fenômeno.
            Levantou-se com dificuldade, devido a uma estranha falta de força nas pernas e uma constante vibração suave - com picos mais violentos e periódicos. Começou a tatear as paredes ao redor, tentando se situar. Sentia que eram todas muito frias, mas feitas do mesmo material. Metal, presumia. Pensou que poderia estar dentro de um de container, mas aquela vibração cadenciada, a qual conhecia bem, dava-lhe uma pista.
            Então ouviu uma risada. Ela era grave, potente e frenética. Olhou ao redor e não viu ninguém. Num primeiro momento, era como se a risada saísse de toda a parte. A iluminação começava a se expandir aos poucos, e ele pôde ver que, de fato, as paredes eram feitas de metal. Pareciam enferrujadas. Era um misto de tons como ocre, laranja e escarlate. Um medo súbito do desconhecido começou a se apossar de seu corpo. Seus pulmões hiper ventilavam e, assim, começou a sentir um forte cheiro de urina, sangue e fezes.
            Uma névoa amarelada extremamente mal cheirosa e sufocante começava a tomar conta do ambiente. A risada continuava no mesmo tom, mesmo tendo já se passado quase um minuto. Era como se a pessoa que risse, não fazia o menor esforço, ou tinha um fôlego infinito.
            Assustado, suas pernas tornaram a falhar. Tentando buscar o equilíbrio, escorregou em algo úmido e caiu. Pelo cheiro, notou que era sangue. Levantou-se tentando manter a calma e, agora, a parca iluminação tomava conta de todo o lugar. Pôde perceber, assim, que os tons escarlate - não só nas paredes, como no chão e no teto - eram de fato sangue. Algumas manchas eram frescas, outras eram do plasma já coagulado.
            Quando tornou a olhar para frente, viu algo novo: um homem trajando um macacão jeans azul todo manchado de óleo e uma espécie de cartola listrada verticalmente em branco e azul. Ela tinha uma aba da mesma forma que um boné, que fazia sombra aos olhos. Esses, por sua vez, emitiam apenas um brilho amarelo como enxofre. O sujeito tinha a pele toda vermelha com grossos pelos pretos que lhe saiam pelos braços. Estava de pés descalços e ostentava um fino bigode que acompanhava a coloração dos demais pelos do corpo.

            Atrás dele, via algo que não estava lá antes. Aquilo se assemelhava a uma fornalha, cuja as labaredas de fogo eram cuspidas ao teto e, por vezes, engoliam aquela figura, que não parecia se importar. Billy olhava sem entender, e a asquerosidade apenas ria.

sábado, 23 de março de 2013

As Crônicas de Folsom - A estrada de ferro pt. 1 de 3

            Encontrava-se em um saloon. Via, no palco, três dançarinas (duas ruivas e uma loura no centro) fazendo uma performance bastante quente ao som de um piano bastante animado com um pianista mais animado ainda. Era negro e vestia um terno branco... Não! Pérola, e um chapéu da mesma cor com uma fina faixa preta ao redor. A mão direita segurava um caneco de vidro cheio de chope, um charuto na boca e... Bom, bizarramente o homem só tinha essa mão, tornando o som proveniente do piano algo impossível naquelas condições, porém, de qualquer forma, saía o som dali, e um som realmente bom, acompanhado por outro negro - esse era cego, não lembrava como sabia disso, pois, ele cobria os olhos com óculos escuros -, fazendo um solo com sua fender strato sunburst visivelmente muito velha (ou mal cuidada), embalando um blues deliciosamente sensual.
            Os demais trastes presentes no saloon, párias em geral, eram desde bêbados e viciados em jogo a assassinos e assaltantes de bancos. Os que não tinham seus olhos grudados nas mulheres, tinham-nos grudados nas bebidas ou no poker. Texas Holden... Alguns jogavam Black Jack também.
            “Eu já vi isso!” Pensou.
            Olhou ao redor e se enxergou em uma das mesas. Lembrou que as coisas não iam muito bem naquela hora.
            - All in! – vangloriou-se Buffalo Head ao fazer a sua aposta. Era um sujeito que a simples visão dava arrepios. Possuía uma cicatriz que saía debaixo do tapa olho esquerdo e seguia até o pescoço. Usava uma jaqueta de couro preta e um chapéu branco sujo e todo manchado. Mais precisamente: trinta e duas manchas. Todas seguindo mais ou menos a mesma tonalidade vermelho-alaranjado. Conta-se que cada mancha é o sangue de uma vítima diferente, algo que o desgraçado carregava como um troféu, e também um aviso.
            Mas, Billy Cash não se intimidava com essas estórias para boi dormir. Na verdade, tinha a opinião pessoal de que foi apenas alguma puta menstruada que usou aquele chapéu para se limpar. Sua maior prova de que, talvez, não estivesse tão fora da realidade é a de que ainda estava vivo, mesmo nunca tendo feito o menor esforço para esconder essa teoria. E na pistola se garantia. Era conhecido por ser o saque mais rápido por essas bandas. E todos os que duvidaram de SUA lenda, já não respiram mais.
            Billy tinha conquistado uma soma interessante naquela noite. Daria para passar o mês folgado e ainda comprar um bom presente para Mary Ann, porém, essa última mão foi um desastre. Estava tão transtornado que Buffalo Head percebeu, por isso pediu “All In”.
            O desgraçado, distraído, já comemorava. Billy, então, sacou a pistola e disparou duas vezes. Uma para cada pulmão, sua marca registrada.
            Deliciou-se ao rever a cena. Mas havia algo estranho. Perguntava-se como era possível rever aquilo. Ainda por cima, vendo a SI MESMO, como se fosse um expectador, e não protagonista. Olhou novamente em volta. Excetuando os músicos, as mulheres – que pararam de tocar/dançar assim que os tiros foram disparados, congelando o ambiente numa tensão macabra e fúnebre – e o porco abatido, todas as pessoas tinham o mesmo rosto. Ninguém reagiu. Ninguém disse nada, a não ser as meninas, que haviam dado alguns daqueles deliciosos gritinhos que elas costumam soltar quando se assustam. O piano "automático" seguia solando o blues. Cinco segundos de inanição se passaram e a dupla de músicos voltou à ativa (o negro do piano apenas retomara sua performance), as meninas a dançar sob o pesado olhar do dono da espelunca, e os clientes a beber e jogar, enquanto Billy recolhia os espólios da noite sob o testemunho indiferente dos demais. Alguns estavam em posição de ação, para o caso de uma briga generalizada - o que não aconteceu. Ninguém gostava de Bufallo Head, e ninguém iria procurar honrar a memória de um desgraçado como aquele. Pelo menos, nenhum dos presentes.
            Num piscar de olhos se viu na casa de seus pais. Tinha oito anos e estava escondido debaixo da janela do quarto. Alguém atirava. Lembrou-se imediatamente da situação. Uma discussão entre o pai e os vizinhos havia custado a vida do seu velho. Agora, ele e a mãe lutavam pelas suas. Tudo por causa do funk a toda altura que o corno fazia questão de ouvir as nove horas da manhã de domingo.
            A mãe jogou-lhe um dos revólveres favoritos do pai, gritando as seguintes instruções: “Aponta o quadradinho para o meio da testa do filho da puta e esmigalha o gatilho!”. Já tinha visto o velho fazer isso. Parou. Pensou. Lembrou. Pensou de novo. O filho da puta atirava em direção a sua mãe. Estava escondido perto do carro, ao lado do corpo do pai. Fez mira. Respirou fundo e fez o que a mãe ordenou. Três disparos. Silêncio mortal. Pai vingado. Paz restaurada.

            - O próximo passo é aprender a atirar bêbado, pra lá adiante não levar a pior. – Disse a mãe abraçando-o e lhe dando um beijo carinhoso na testa enquanto as lágrimas de ambos rolavam.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

As Crônicas de Folsom - Entardecer em San Miguel pt. 2 de 2


            Johnston não via mais nada. A exaustão lhe drenou todas as forças.
            Porém ouvia.
            Ouvia os gritos de horror.
            Gritos de desespero.
            Gritos de dor.
            - AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAARRRRRRRRRRRGHHHHHHHHH!!!
            - NÃO NÃO NAÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃAAAAARRRRGGGHHH!
            Mulheres clamando misericórdia. Crianças choramingando por suas mães. Homens suplicando por suas vidas.
            E atirado no meio desse horror, o velho só tinha duas certezas: a de que sua hora chegara e que:
Não há nada que os detém quando a noite cai e nem nada que os acalme quando a lua cheia sai.


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Conto inspirado em "Matanza - Satânico parte 1 e 2"

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

As Crônicas de Folsom - Entardecer em San Miguel pt.1 de 2


            O entardecer em San Miguel sempre fora um espetáculo da natureza. Os vales entre as colinas que rodeiam essa pequena cidade, criam corredores naturais para que a brisa marítima, que adentra os continentes no crepúsculo do dia, possa refrescar mais um dia de intenso calor no interior da Califórnia. No chão, ao longe, era possível ver as sombras das nuvens, que ficavam logo abaixo da luz escarlate do astro supremo refletida na nossa atmosfera. E a lua no céu, para os admiradores, nesses momentos, joga em nossas caras o quão pequeno somos e como é vasto o universo. Nos faz imaginar como seriam os lugares os quais nunca fomos, mas que imagens produzidas ali perto, a menos de cem quilômetros, em Hollywood, nos davam uma pista, de como, provavelmente, esses lugares NUNCA seriam.
            Todos retornavam de seus afazeres. Sejam eles realizados nas fábricas, nas lavouras ou no comércio. As de “moças de vida fácil” se dirigiam para os cabarés, recepcionar os caminhoneiros e viajantes das vias férreas. Eram as únicas que realmente trabalhavam a noite, pelo fato de San Miguel ser uma cidade totalmente pacata.
            Porém, somente um velho lembrava-se de como tudo aconteceu. Johnston era o seu nome. Aquele entardecer era diferente dos outros, mas igual àquele de sessenta anos atrás. Mr. Johnston havia sentido um calafrio ao acordar, e tinha atribuído-o a, talvez, um princípio de gripe, mas não dera bola. Foi um erro. Ele sabia. Flashes espocavam em sua memória. O terror de sua infância. As horas preso naquela saleta escura, que só tinha uma entrada e uma mesma saída: uma porta folheada com prata. Ele gritava pelas ruas. Gritava desesperadamente:
            - CORRAM PARA A SALA COM A PORTA DE PRATA!
            E repetia cada vez mais alto.
            - CORRAM PARA A SALA COM A PORTA DE PRATA!
            As pessoas olhavam-no de forma estranha. Um jovem casal ria da cena, de um velho caquético correndo pelas ruas, dando a impressão de que a bengala que sempre viram-no usando para auxiliar a sua caminhada era apenas um ornamento, ou uma questão de estilo de um velho gagá.
            Uma porta de madeira folheada de prata não era algo muito comum, de fato, mas era a casa de um antigo rico excêntrico, cujo o filho era muito seu amigo. Brincavam de esconde-esconde na casa, quando o primeiro apareceu. O então garoto Johnston só escutava os gritos provenientes, num primeiro momento, da rua. Imaginava se tratar de algum tipo de festa dos adultos, porém, eles foram se aproximando. Cada vez mais alto! Até que os gritos começaram a ecoar dentro de casa, e em seguida ele os escutava na sala ao lado, e no corredor para o qual dava a bendita porta de madeira folheada de prata. Essa, por sua vez, foi forçada uma, duas, três vezes, mas, sem nada conseguirem, o que quer que fosse, virou as costas e foi embora.
            A sanidade de Mr. Johnston foi preservada, uma vez que ele não viu de fato acontecer o que tinha se passado: corpos mutilados no chão, em cima das mesas, nas sarjetas, nem mesmo na “casa onde ele era estritamente proibido de passar perto, porque as pessoas faziam coisas indecentes”, ordem essa que ele desobedeceu, encontrou alguém. Talvez por ter apenas dez anos e estar, sem duvida alguma, totalmente apavorado, não procurou direito – e nem há como culpá-lo. Contudo, outras três pessoas, dois adultos e uma adolescente, sobreviveram o massacre junto com ele. Os adultos decidiram cuidar dele, já a jovem não teve dúvidas. Passados sete dias, e com os moradores da cidade que estavam viajando, seja a trabalho ou de férias, não acreditando nos relatos das três testemunhas, sumiu da cidade e nunca mais foi vista. Os dois adultos tomaram conta do pequeno Johnston. Quinze anos depois, ambos haviam morrido de doença e o agora jovem Johnston já era um homem feito, com uma vaga lembrança daquele dia que, com o tempo, foram se tornando cada vez mais vagas.
            Até hoje.
            - CORRAM PARA A SALA COM A PORTA DE PRATA!
            Ele tornava a gritar, mas nem sua família lhe dava ouvidos.
Então caiu exausto e nada mais viu.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Desbravadores


            As sondas voavam por Júpiter, Saturno e Urano. Pousaram em Marte e na Lua. Fora despachada uma para Vênus e Mercúrio, mas derreteram antes que percorressem um terço da distância inicial até o Sol.
            Enquanto isso Andrômeda continua inexplorada.
Assim como o fundo dos mares.
            As aventuras que o homem pensa em fazer.


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Inspirado na música "As aventuras que o homem quer fazer" da banda Riograndina Vampiros Nordestinos <<< clique para acessar o blog

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

As Crônicas de Folsom - Joe Bean


            O nascer do sol jorrava seus raios sobre toda a Califórnia. Viajava pela falha de San Andreas, atingia em cheio o letreiro de Hollywood e todos os estúdios que de cinema que a cidade possuía. Atravessava algum vão de uma porta qualquer, acertava as folhas de uma macieira. E cria a ilusão, em conjunto com a atmosfera, de que o céu diurno é azul.
            Um conjunto de raios em particular viajou pelo espaço, chegou até a cidade de Folsom, mais precisamente na prisão de Folsom. Para ser ainda mais específico, atingiu uma janela em especial. Uma que não possuía vidros, apenas três barras de ferro de uma polegada de espessura cada. Alguns desses raios chegaram as pálpebras de um jovem rapaz, que estava deitado na cama dessa cela.
            Com a luminosidade, Joe acordou. Estava com frio, uma vez que não tinha nenhum tipo de coberta para se tapar durante o sono. Esfregou os braços para tentar aquecer o corpo. Olhou na parede o calendário improvisado que fez, para saber precisar a passagem do tempo. Sorriu. Era seu aniversário. Completava hoje vinte anos. A felicidade, assim como veio, se foi, dando lugar a melancolia, afinal, ironicamente, hoje era o dia em que sua sentença seria cumprida.
            Escutou um martelar do lado de fora, no pátio, o que lhe fez os pelos da nuca se arrepiarem e um bolo se formar em seu estômago. Segurou-se em duas das três barras, fez um pouco de força, e conseguiu erguer o corpo os quarenta centímetros necessários para conseguir ver o pátio da prisão. Estavam construindo, ali, a forca. Seu destino final.
            Lembrou-se que, em sua última carta, mamãe havia dito que estava indo ao capitólio, para pedir ao governador por um pronunciamento sobre sua terrível sentença, afinal, Joe era inocente! E ela tinha como provar.
            Joe rezava. É o que lhe restava. Fora condenado pela morte de vinte homens no estado do Arkansas. Como poderia matar vinte homens no Arkansas sem nunca ter ido ao Arkansas? E melhor, como ELE poderia matar vinte homens no Arkansas numa época em que tinha apenas dez anos de idade? Não sabia. Sabia apenas que tinha sido preso e condenado à morte... Antes tivesse matado os vinte infelizes.
            - Joe Bean! Joe Bean! – Uma voz grave chamava por seu nome. Reconhecia a voz, era o tenente Viper.
            - Cela 10! – Respondeu Joe. O homem parou de gritar seu nome e só caminhava. Alguns presos praguejavam por causa do escarcéu, pois queriam dormir. O estalar dos coturnos do policial aumentavam e ele fazia questão de gritar para os presos que protestavam contra o barulho para que calassem as malditas bocas.
            - Joe Bean, você vai tomar café cedo hoje. Cortesia do Sr. Folsom pelo seu último dia aqui. – Viper abriu um sorriso sarcástico. Joe nunca se abalava com o jeito petulante do policial, mas aquilo que acabara de fazer foi o ato mais anti-humanitário que já sofrera. O sujeito tinha colhões para fazer piada com a cara de um homem, em seu último dia de vida, exatamente por esse motivo: Era seu último dia de vida. Viper deu a ordem para que Joe virasse de costas e colocasse as mãos no vão que há entre as grades. O condenado acatou e o policial algemou suas seus pulsos, logo em seguida abriu a porta da cela e ordenou que Joe o acompanhasse.
            - O que tem para comer? – Perguntou Joe.
            - O de sempre. Só que agora vem um ovo frito e estarás sozinho. Em paz. Sem a presença desse monte de merda.
            - Quanta gentileza. – Ironizou.
            O café foi a mesma merda sem gosto de sempre, e, como o policial tinha dito, veio um ovo frito. Mas estava frio. E sem sal.
            - A hora da sua sentença saiu, Joe Bean. Será as duas da tarde. – Viper falou assim que o recolocou na cela.
            - Alguma correspondência da minha mãe ou do capitólio? – Viper riu.
            - E porque o capitólio iria querer falar com você, seu merdinha?
            - Porque sou inocente. – Viper riu mais alto.
            - Claro que é. – Disse ao meio das risadas enquanto enxugava uma lágrima.
            Não era justo. No dia em que o tal assassino matou os vinte caras, ele tinha dez anos de idade, porra! Como poderia ter matado vinte caras!? Aliás: “Eu estava em Santa Fé... Cometendo pequenos delitos... Batendo carteiras... Roubando dinheiro do lanche de meninos e meninas defronte algumas escolas de riquinhos que faziam pose de quem tinha classe...”, pensou. Bateu com a cabeça na parede algumas vezes. Como queria ter, pelo menos, matado algum dos caras para merecer esse fim miserável.
            Ao meio dia, Viper, novamente, retornou a sua cela.
            - Tens direito a uma última refeição ou a um maço de cigarros e um banho de sol de uma hora exclusivo, ou... – o policial falou entre dentes visivelmente enraivecido – Uma garrafa da bebida que quiser. – O homem estava vermelho de raiva - Você que escolhe.
            - Pode ser uma garrafa da Vodca mais vagabunda que vocês tiverem aí...
            - Isso aqui não é um maldito bar e eu não sou a porra dum barman para ficar servindo um pedaço de merda que nem você. – Viper bateu com o cassetete na cela, fazendo o barulho característico do ferro chacoalhando, virou as costas e saiu praguejando, dizendo que iria falar com o diretor a respeito de parar de enviá-lo para ser garçom de filho da puta assassino. Joe sorriu, pois sabia que nessa ocasião, eles davam o que o preso pediam e Viper deveria trazer o seu último pedido.
            Tomou toda a Vodca e, logo, chegou a hora.
            - Joe Bean! Joe Bean! – Uma nova voz chamava por si. Era uma voz mais aguda dessa vez, indicando que era o sargento Matlock.
            - Cela 10! – Gritou com a voz embriagada.
            - Vamos, Joe... – O homem era mais novo que Viper e, visivelmente, mais mole. Odiava quando o faziam escoltar um condenado a morte. Era sempre muito triste, por mais que fosse um filho da puta matador de criancinhas. Não era o de Joe, mas era sempre triste. Joe pôs os punhos no vão e o homem o algemou.
            Em sua caminhada até o pátio, alguns presos debochavam, outros lhe desejavam paz e outros ainda não davam a mínima. A maioria dizia “Te vejo no inferno.”. Joe estava feliz, pois estava bêbado. Afinal, conseguiu tomar um porre no seu último aniversário. Sorriu quando pensou que, se estivesse sóbrio, poderia sentir alguma dor. “Aquela garrafa de Vodca foi a melhor escolha da minha vida.”. Joe deu uma gargalhada. Matlock ficou perturbado. Nunca iria se acostumar com as diferentes reações que cada homem tinha minutos antes de sua morte anunciada. Decidiu que, depois disso, iria pedir sua transferência. O dinheiro a mais que recebia por trabalhar na prisão não estava compensando.
            Joe subiu as escadas que levavam ao palanque onde a forca fora montada. O carrasco estava a postos. Então o autofalante do pátio deu uma forte microfonia, fazendo, os que podiam, cobrir os ouvidos. Uma voz metálica saiu dali em alto e bom som. Era a voz do diretor:
            - Atenção Joe Bean! Atenção! Temos uma mensagem direto do capitólio e assinada pelo governador. – Joe sorriu de alegria, era a sua salvação! O diretor pigarreou. – “Ouvi sua comovente história, senhor Joe Bean. A Sua mãe veio pessoalmente até Washington D.C., falou com todas as minhas secretárias e esperou incansavelmente até que eu tivesse uma brecha em minha agenda para poder falar-me. Foi uma tremenda falha da Justiça dos Estados Unidos da América ter marcado a sua execução no dia de seu aniversário. Mas eu não posso fazer nada em relação a isso. Tudo o que posso fazer é me juntar a sua mãe e lhe desejar um feliz aniversário.”. – Então o autofalante ficou mudo. Segundos depois, Joe não ouvia mais som nenhum.