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terça-feira, 19 de outubro de 2010

O "Cara" - Capítulo 5

            Três batidas ritimadas na porta.
            - Entre.
            - Doutora Lúcia? – Um rapaz bastante jovem, na casa dos 20 anos, falou colocando meio corpo para dentro da sala.
            - Pois não, Mauro?
            - Eu presenciei um caso estranho hoje pela manhã.
            Lúcia riu. Respirou fundo e, com um leve sarcasmo, tentando não ofender o estagiário recém chegado, falou:
            - É natural presenciarmos casos estranhos nesse estabelecimento, Mauro. – E deu um sorriso gentil para o jovem não se ofender.
            - É verdade, senhora. – Ele retribuiu, sentiu-se mais a vontade e entrou na sala. – Desculpe, me expressei mal. Bom, acredito que não seja normal, dentro dos padrões do estabelecimento, que um novo sintoma se manifeste depois de um bom tempo da entrada de um paciente que esteja sendo devidamente tratado.
            - Como assim, Mauro? – Lúcia se surpreendeu. – Seja específico, por favor.
            - Claro. – Ele sorriu e se aproximou da mesa do escritório da Doutora Lúcia. – Posso? – Perguntou apontado para uma das duas poltronas de couro preto que ficavam a frente da mesa.
            - Oh, perdoe a minha falta de atenção. Claro, sinta-se a vontade.
            - Obrigado. – Disse o jovem sentando-se. – É o seguinte, eu passei pelo dormitório do paciente 231 e ouvi ele falando sozinho.
            - 231... – Disse ela enquanto procurava o arquivo dentro de uma gaveta. – Oh, lembrei quem é...
            - Sim, ele mesmo.
            - Já conhece a fama?
            - Advertiram-me para não me aproximar.
            - Sabias palavras. – Ela se inclinou na mesa. – Mas como assim falando sozinho?
            - Ele dizia algo sobre suspeitar que o trabalho não havia terminado ainda. Imaginei que ele tivesse ouvido eu me aproximando e pensado que era algum médico ou enfermeiro, mas, então ele disse um nome. Eu sei que sou novo aqui, mas sei que não há ninguém com esse nome nessa ala.
            - Que nome, Mauro?
            - Ele conversava com alguém chamado Thiago, mas estava sozinho na cela.
            - O QUE?! – Lúcia gritou e Mauro se assustou, dando um pulo na poltrona. – Desculpe, Mauro, mas não é possível!
            - Achei estranho aquilo, então procurei informações sobre o diagnostico dele, e não constava esse sintoma.
            - Sim, não consta. Eu que fiz o diagnóstico.
            - Não duvido de sua capacidade, Doutora Lúcia, mas será que...
            - Preciso averiguar isso. – Interrompeu. Fez-se um silencio na sala, de certa forma, constrangedor, por cerca de um minuto. – Desculpa, Mauro, muito obrigado pela informação.
            - De nada.
            Lúcia pegou o telefone e discou o zero e depois 1834.
            - Segurança. – Uma voz masculina soou.
            - Aqui é a Doutora Lúcia, quero que enviem o Maicon para o dormitório do paciente 231.
            - Maicon está de folga hoje, Doutora Lúcia.
            - Como “folga hoje”? – Um tom mais enérgico lhe escapou.
            - Tivemos que dispensá-lo. O homem fervia em 39 de febre. O Amaury está a disposição, Doutora.
            - Certo... Não tenho opção. Envie-o.
            - Agora mesmo, Doutora.
            - Obrigada. – E desligou o telefone.
            Lúcia passou o tempo todo até chegar ao dormitório do Cara pensando no que acabara de ouvir. Será que não detectou um sintoma? Um sintoma tão fácil de detectar! Deve haver uma explicação lógica para isso.
            Assim que chegou perto do dormitório, Amaury, vinha andando as pressas no fim do corredor. Amaury é afro e tem o cabelo raspado. É pouco menor que o Maicon, mas daria conta do recado, imaginou.
            - Boa tarde, Doutora Lúcia. – Disse o segurança.
            - Boa tarde. – Ela sorriu e ele retribuiu.
            - Com licença. – Ele disse pegando o molho de chaves e procurando a correta. Encontrou. Aproximou-se da porta e bateu três vezes de forma nada gentil.
            - Cara, levante-se e ponha as duas mãos em cima da mesinha ao lado da cama. Doutora Lúcia e eu vamos entrar. Não tente nenhuma gracinha.
            - Sem problemas!  - Ele respondeu.
            Amaury contou cinco segundos mentalmente e abriu a porta. Olhou para dentro e lá estava o sujeito com as mãos na mesa.
            - Ué, o que aconteceu com o outro armário simpático?
            - Folga. – Disse a doutora.
            - Mas é uma pena... E o que trás a sua adorável presença no meu humilde aposento, doutora?
            - Quem é Thiago, Cara?
            - Ãhm? Ah, o Thiago, já contei. É meu amigo que foi morto pelo José, esqueceu?
            Lúcia se aproximou.
            - Um estagiário te ouviu conversando aqui com o Thiago.
            - É muito chato ficar aqui sozinho sem fazer nada, então, eu me distraio como se estivesse conversando com alguém, doutora.
            - Qual o nome completo dele?
            - Qual a importância?
            - Qual é o nome completo dele, Cara?
            - Thiago Ávila Pouzada.
            - Obrigada.
            - O que vai fazer? Procurar pra ver se existe? Acha que estou louco?
            Lúcia olhou nos seus olhos e ele então percebeu.
            - Claro. Claro que acha. Não acreditas em uma maldita palavra do que eu disse até agora.
            - Me desculpa, Cara, mas muitos aqui me perguntam a mesma coisa e até hoje 100% estavam.
            - Eu sou é louco por você, Lúcia.
            Foi um baque. Ela não esperava por isso.
            - Não seja ridículo, Cara.
            - Falo tão sério como sempre falei. – E se aproximou da mulher.
            - Hey! Para trás! – Amaury encostou a ponta do cacetete e empurrou o cara, sem desencostar a arma do peito dele. O movimento brusco fez o molho de chaves balançar fazendo o barulho característico.
            - Isso é arriscado. – Cara apontou para as chaves presas ao cinto do segurança. Amaury olhou, então, aproveitando o segundo de desatenção, Cara, girou o torso para a direita, se desvencilhando do cacetete, e pegando o mesmo com a mão esquerda. Com a direita, desferiu um soco potente com as costas da mão no nariz do segurança, que recuou soltando o cacetete. Lúcia se sobressaltou e não sabia o que fazer, quando pensou em gritar, Cara acertou com o cabo do cacetete no diafragma da mulher, que, perdendo as forças, foi caindo ao chão. Amaury foi em direção a ele na intenção de agarrar suas pernas e derrubá-lo. Cara se esquivou e na hora que o segurança se abaixou, Cara desferiu um forte golpe na nuca do homem, jogando-o desacordado no chão. Olhou para o Lado e Lúcia estava caída sentada no canto sudeste da sala. Ofegante e sem forças nem para gritar, devido a pancada no diafragma, Cara se aproximou.
            - Desculpe, meu bem, mas isso foi necessário.
            Lúcia tentava respirar mas o ar não vinha aos pulmões.
            - E isso, é só para garantir, mas me desculpe, novamente. – Então, ele deu uma pancada na nuca. Fez com cuidado para não causar nenhuma lesão, apenas para desmaiá-la. Colocou-a na cama e beijou seus lábios, foi em direção a porta e colocou o rosto para fora, na intenção de descobrir se algum segurança estava por perto. Por sorte, nenhum a vista. Pegou as chaves do cinto do Amaury, fechou a porta rapidamente e trancou-a.

            Alisson caminhava rabiscando uma ficha de uma ninfomaníaca esquizofrênica que acabara de atender. Tentava se concentrar, mas era difícil depois de tudo que a ruiva doida – gostosa e sedutora, porém doida – havia lhe dito. Chegava a se arrepiar só de pensar em tudo o que ela havia lhe proposto. Estava tão fora de si que nem percebeu o que havia lhe atingindo, fazendo seus óculos voarem uns três metros apara trás, divididos em 6 pedaços. Escutou somente um “crack” em seu nariz, assim que dobrou a direita em um corredor. Logo em seguida tudo ficou escuro.

            Por sorte, o jaleco do médico estava aberto e não manchou de sangue. Cara tirou o traje do homem e vestiu. Era pequeno, mas serviria. Olhou em volta e não viu nenhum segurança. Ainda. Pois vi que havia uma câmera vigiando-o. Precisava pensar rápido. Levantou com rapidez e as chaves em seu bolso pesaram. Teve uma idéia. Catou as chaves do bolso. Identificadas. Sorriu. Era hoje que sairia dali. Olhou em volta. Quatro portas. 251, 252, 253 e 254. Buscou rapidamente as chaves e abriu as portas. Quatro pessoas saíram. Uma de cada dormitório.
            - LIBERDADE! – Gritou, e os quatro gritaram juntos e saíram correndo um para cada lado.
            A sua volta havia outras quatro portas. Pegou as chaves e abriu-as. Pouco depois, dois seguranças corriam em sua direção, vindos do corredor a norte. Examinou-os. Magros, comparados com Maicon e Amaury. Sorriu e correu em direção a eles. Arremessou o cacetete no da esquerda, acertando em cheio na sua cara. O outro pulou em direção a sua cintura e ele pulou sobre o segurança, fazendo-o passar por baixo. Deu uma cambalhota, assim que ia tocar o chão,  pegou o cacetete e correu. Mais dois corredores e estaria livre. Olhou para trás, o segurança corria em sua direção. Dobrou a direita olhando para as portas, viu a seqüência 32 nos números. Diminuiu o passo enquanto procurava alguma chave. Encontrou a do 327 e abriu-a. Fez o mesmo com 328, 329 e 330. Continuou gritando “Liberdade”, para atiçar os recém libertos, enquanto corria para a sua liberdade. Dobrou a esquerda no próximo corredor. Havia um médico e outros dois seguranças, porém, estavam longe. Sorte. Abriu outras duas portas e os seguranças correram em sua direção. Viu que o médico carregava uma seringa. Abriu outra porta e mais um paciente estava liberto. Esse paciente, ao contrário dos demais, que corriam em direção oposta aos seguranças, correu de encontro a eles, enquanto gritava “RUGBY!”. Pulou para cima do segurança que ficava a direita. Cara riu da situação, e foi em direção ao da esquerda. Tentou a mesma estratégia e arremessou o cacetete. O homem desviou e pulou em sua cintura, derrubando-o. Irritado, começou a golpear o rosto do segurança com fortes socos. Ele cedeu um pouco, então conseguiu levantar. O médico quase gravou a seringa em seu braço. Por reflexo, Cara segurou o pulso do médico e torceu-o, fazendo um estralo característico de ossos quebrando. Grito e seringa ao chão. Cara pegou a seringa e colocou no bolso do peito do jaleco. Pegou a cacetete e correu em direção ao fim do corredor, que dobrava para a esquerda.
            Finalmente a porta dupla com o vidro blindado. Saída. Correu. Chegou perto da porta e viu o saguão da entrada com quatro seguranças. Um deles muito grande por sinal. Destrancou a porta e, assim que o fez, os seguranças já voaram em sua direção. Com o cacetete, o primeiro que passou, um loiro baixo, foi golpeado na orelha. Cambaleou e caiu próximo da janela a direita do corredor. Em seguida, um rapaz com cara de índio seguido de um careca e um afro passaram pela porta. Cara correu o mais rápido que pôde para trás, então, virou-se e parou. Os homens correram atrás dele, mas não conseguiram acompanhar. O primeiro que chegou perto foi o careca, que pulou numa voadora. Cara esquivou para o lado e acertou com o cacetete a boca do sujeito. Com a força que o homem vinha, ele não conseguiu segurar a arma fazendo-o soltá-la. O índio veio em seguida. Cara esquivou, fazendo com que o homem ficasse com o tronco às suas costas, então, com o cotovelo esquerdo, acertou-lhe o nariz. Quando Cara virou para pegar o afro, era tarde e ele havia o derrubado já. O afro era muito forte e estava conseguindo vencer a disputa de forçar. Cara não o deixara golpear o rosto, segurando suas duas mãos. O homem conseguiu soltar uma e passou a apertar o pescoço do fugitivo. Cara então foi com a mão livre até o bolso do jaleco e cravou a seringa onde conseguiu. Não viu. Apenas cravou e apertou. Três segundos depois, as forças do homem se esvaeceram e ele tombou. Cara saiu de baixo e correu. Correu como a muito tempo não corria. Correu para a liberdade e para resolver assuntos inacabados.

Dedicado ao co-autor e grande amigo, Thiago Ávila Pouzada

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O "Cara" - Capítulo 4

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Matéria retirada do jornal “A Manchete” publicada no dia 4/12/2005

TRAGÉDIA NA CIDADE F! O CASO DO COLÉGIO F
            Na manhã do dia 2 de dezembro, por volta das 10 horas, um massacre ocorreu no Colégio F. Praticamente todo o quadro docente foi assassinado de forma brutal, assim como cerca de 6 (seis) alunos. Após as mortes, o suspeito de cometer os crimes ateou fogo em todo o colégio. Os nomes das vítimas e do suspeito não foram divulgados pela polícia e não há idéia do motivo dos crimes.
            Testemunhas contaram à polícia que o suspeito simplesmente enlouqueceu e partiu para cima de um professor durante uma aula (que não foi divulgada pela polícia), mas o jornal especula que tenha sido uma aula de física.
            Muitos dos alunos presentes no momento que o transtorno iniciou estão em estado de choque. “Tudo aconteceu muito rápido. Quando dei por mim, uma batalha se iniciou. Digo batalha, porque lutavam de igual para igual.” Disse T.P.A, segundo inquérito policial. Peritos dizem que o estresse que esse aluno passou foi grande e que é normal ele fantasiar sobre o evento ocorrido.
            O suspeito continua foragido, mas a polícia garante que está próxima de capturá-lo.

Matéria retirada do jornal “A Manchete” publicada no dia 6/12/2005

PRESO SUSPEITO DO MASSACRE DO COLÉGIO F
            Na madrugada do dia 5, foi preso o suspeito de executar brutalmente 6 alunos e um numero não divulgado de professores do colégio F na última sexta-feira. A polícia ainda não divulgou o nome do rapaz, mas afirma ser um dos estudantes. O menor resistiu à prisão usando de violência, ferindo três policiais gravemente, todos com traumatismo craniano, e um deles ainda perdeu um pouco de massa cefálica, utilizando uma barra de ferro.
            Foram apreendidos na casa onde o menor foi detido a barra de ferro, um taco de madeira com pregos na ponta e uma espada japonesa sem fio. Ele se dizia inocente por estar fazendo um favor a sociedade. “Ele estava totalmente fora de si, agrediu três oficiais gravemente e outros dois que não sofreram nada além de escoriações leves.” Disse um policial.
            Depois de ser detido, o menor foi encaminhado a delegacia de polícia civil e transferido provisoriamente para a penitenciária estadual da cidade F, para que uma possível tentativa de linchamento fosse evitada.

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            - Meu Deus, Cara... O que foi que você fez? Como que chegou a esse ponto? – Lúcia se perguntava ao rever algumas manchetes de jornais.
            Nunca antes tinha encontrado um caso assim. Uma pessoa que consegue dar tantos detalhes em uma história. Mas ao mesmo tempo em que parecem reais, são totalmente absurdas. Já viu e escutou muita coisa em todo o tempo que possui de experiência, mas nunca nada assim.
            Não podia duvidar de que ele era realmente um perigo a sociedade, afinal, ela viu, com os próprios olhos, aquele sujeito de 1,80m e cerca de 90kg surrar dois seguranças que seriam o dobro do tamanho dele, sendo parado somente por um que tinha o triplo do seu tamanho.
            - Dra. Lúcia? – Uma voz de homem soou as suas costas.
            - Sim? – Ela se virou.
            - O rapaz aquele deseja vê-la novamente.
            - Ah, sim, diga a ele que já estou a caminho.
            - Ok, sem problemas. – Fechou a porta da sala dos arquivos e escutavam-se seus passos se distanciando.
            Organizou as reportagens dentro da pasta “Orlando ‘Cara’ Santos”, pegou a ficha e guardou a pasta dentro do armário de arquivos que ficava na parede oposta a da porta, no canto direito e saiu.
            Atravessou alguns corredores, ora dobrando a direita, ora a esquerda e, enfim, chegou ao quarto 212. Não precisava procurar o número, bastava procurar pelo Maicon, o segurança que conseguiu detê-lo da ultima vez, que estava parado ao lado da porta do quarto dele.
            - Preparado pra mais uma, Maicon? – Perguntou a mulher.
            - Sempre que solicitado, senhora Lúcia. – Bateu na porta de metal com violência. – Cara, ta na hora da entrevista.
            - Podem entrar. – Disse ele, lá dentro.
            Maicon abriu a porta e entrou na frente.
            - Por favor, sente-se na cama e ponha as mãos em cima da mesinha ao lado. – Disse o segurança com a mão no cacetete.
            - Sem problemas. Estou sedado também.
            - Boa tarde, Cara.
            - Dona Lúcia, que surpresa agradável! – Falou com entusiasmo.
            - Como surpresa? Tu já sabias que eu viria...
            - Sim, sim. Apenas força do hábito.
            - Oh, tudo bem, então. Podemos começar?
            - Sem problemas. Posso começar de onde eu parei se preferir...
            - Na verdade, Cara, eu gostaria de começar com uma pergunta.
            - Se eu puder responder...
            - Quantos professores tu matastes?
            Ele começou a rir. Gargalhar, na verdade. Então, começou a contar nos dedos.
            - Se não pulei nenhum, ou se não contei nenhum duas vezes, matei dez. – Ela olhou com um certo espanto para ele. – Por que a pergunta, querida Lúcia? Não tem essas informações nos jornais?
            - Na-não... – ainda um pouco abalada – A polícia não divulgou um número oficial e estranhamente muitos familiares não se manifestaram em relação aos entes mortos.
            - Claro, os professores que matei eram demônios. Bestas do inferno. Não tinham familiares.
            - A polícia encontrou, além da barra de ferro, que você usou para resistir a prisão – ele sorriu com a lembrança – outras duas armas. Um taco com pregos na ponta e uma espada japonesa sem fio. Por que tu carregavas essas armas?
            - Tinham armas que funcionavam melhor com cada um deles. Por exemplo, para enfrentar o Humberto, eu precisava usar a espada, mas ela tinha fio. Perdeu o fio de tantas batalhas travadas. Não se vende para menores em lugar nenhum no Brasil uma espada com fio, então, eu tinha que fazer o fio nela, o que não era muito bom, mas quebrava um galho. A barra de ferro funcionava muito bem com o José e o Roberto.
            - Roberto?
            - Não apresentei na história ainda, era um dos professores de matemática.
            - Hum... Podes falar a respeito?
            - Claro, sem problemas.
            Professor Roberto era uma grande alma. Foi disparado o melhor professor de matemática que eu tive. Porém, como todo humano, é suscetível a tentações.
            Em 2004, como eu disse, ele foi um grande professor, porém, em 2005, um grave acidente matou seu sogro e sua sogra. Angelina, sua esposa, ficou muito deprimida, e, um dia, ela apareceu enforcada na sala do apartamento onde ele e ela moravam juntos. Então, ele mudou. Começou a agir que nem um deles. Levava estudantes para sua sala com a desculpa deles tirarem dúvidas e, puf, desapareciam sem deixar vestígios. Acredito que ele usava sua boa credibilidade com os alunos para atrair vítimas para os demais professores.
            Certa vez eu vi ele levando uma guria do primeiro ano para sua sala. Fiquei na espreita, então, eu escutei na sala do José, o grito dele. Tive que correr pra lá e tentar impedir. Nesse dia foi o primeiro e único que eu consegui evitar. Era um colega meu que estava lá. Ele não tinha problema de visão, então, devido à magia do José, ele teve uma seqüela na visão. Ficou conhecido mais tarde como zarolho. Ingrato.
            - Imagino que esse tenha sido um dos seis alunos que você...
            - Exatamente, mas isso é outra história.
            - Certo.
            - Então, depois de arrebentar a cara do José pela enésima vez, eu voltei correndo pra sala do Roberto, e a guria não estava mais lá, mas eu pude escutar uma risada vinda da sala da Rafaela. Corri até lá e consegui ver o corpo da menina caindo sem a cabeça e sem sangue.
            Seu bastão brilhava, acho que era assim que ela re carregava o poder de sua magia, retirando a mente e o fluido vital de suas vítimas. Tentei acertar a bruxa ao arremessar minha barra de ferro, mas ela sumiu bem na minha frente, assim como o corpo da pobre menina, segundos depois.
            Fui até a sala do Roberto e ele estava ali, me encarando, com olhos que eu não reconhecia mais. Ataquei, mas o infeliz sabia se defender. Praticava Tae Kwon Do. Foi uma peleja dura. Depois que ele me desarmou, parti com as mãos nuas para um tudo ou nada. Ele estava meio destreinado, fazia muito tempo que não praticava, então, com sorte eu consegui acertar um soco potente no seu rosto, fazendo ele cair em cima de uma mesa, que se quebrou. Peguei então uma das pernas da mesa e não pensei duas vezes. Comecei a golpear. Primeiro ele conseguiu defender um golpe, mas o segundo eu acertei na canela, quebrando-a, junto com a perna da mesa. Ele rolou de dor no chão, então eu pisoteei a sua cabeça e quando ele começou a se mover menos, peguei a barra de ferro e desferi três golpes na sua cabeça, pondo um fim na história. Até a Rafaela ressuscitar ele e o José assim que eu saí do prédio.
            - Obrigada, Cara.
            - Mas já?
            - Sim, até a próxima.
            - Ok, então. Até.
            - Tchau. – Lúcia pegou o gravador, levantou e saiu, junto com Maicon, que vinha logo em seguida.


            Dedicado ao grande amigo e co-autor, Thiago Ávila Pouzada

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

"O 'Cara'" - Capítulo 3

            Batidas na porta.
            - Cara, abre aí. Tá na hora. – Uma voz de homem bastante grave. Ótimo jeito de acordar.
            - Vai vê se eu to na esquina!
            - Cara, abre a porta, sou eu, Lúcia. – Agora melhorou a situação.
            - Só um minuto. Eu gosto de dormir sem calças.
            Dois minutos depois, eu abri a porta.
            - Dona Lúcia! O que a trás aos meus humildes aposentos?
            - Você se mostrou bastante instável na terça passada. Então mandaram eu vir aqui hoje, pra conversarmos em separado. Eu tentei explicar que você apresentou melhora significativa, mas...
            - Mas eu estraguei tudo e me descontrolei certo?
            - Não lembras? – me perguntou com cara de estranheza.
            - Nada, lembro duma pancada que deve ter feito esse galo aqui na minha cabeça, mas o resto...
            - Bom, tu quebrasse o nariz do Alberto e quebrasse o pulso do Júlio...
            - Quem são esses?
            - São os dois primeiros seguranças que eu chamei ontem.
            - Hehehe, eu disse que era bom chamar reforço...
            - Pois é. Por isso eu trouxe hoje o Maicon. – Apontou para o maior armário humano negro que eu já vi na vida – Foi ele que...
            - Oh, e aí, Maicon, tudo bom? – Estava estranhamente calmo, estranho... Oh, claro. – E me drogaram, por precaução, certo?
            - Foi necessário, desculpe.
            - Não precisa se desculpar. Não tenho como ficar bravo no momento. Nem se eu quiser. – Pior é que eu estou tentando mesmo.
            - Podemos prosseguir?
            - Sem problemas. – Deus, eu sorri.
            - Eu já disse que aquilo lá tinha uma maldição? Uma magia negra fortíssima?
            - Eu me lembro de você comentar. – Falou bem séria.
            - Não acreditas né?
            - Apenas continue, sim?
            - ... Sim, senhora...
            - Nesse dia eu descobri o que aconteceu. O porquê do professor José estar vivo.
            Bom, aquele bilhete que o duende macabro enviado-do-satanás escreveu, me fez zelar pela minha vida. Eu comecei a levar alguma coisa dentro da mochila para me proteger. Uma boa e velha barra de ferro.
            - Uma o que? – Ela me olhou surpresa.
            - Barra de ferro de 40 centímetros de comprimento e duas polegadas de espessura, pesando cerca de um quilo. Preta e reluzente. Foi uma grande amiga...
            - Não poderia ser mais específico... – ela comentou.
            - Obrigado. Mas voltando... Eu comecei a levar a minha amiga junto, porque aquele bilhete com certeza era uma ameaça. Eu andava muito ligado, pelo menos era o que eu achava. Na verdade eu estava muito amedrontado. Se a minha sombra se mexesse, minha adrenalina já subia a níveis astronômicos.
            Mas as coisas andavam muito quietas. Passaram-se duas semanas desde o bilhete e não notei nada de estranho, eu já estava meio acomodado, na verdade. Um dia antes desse que vou narrar agora, eu tinha até esquecido a barra de baixo da minha cama. Quando eu percebi que havia esquecido ela que eu voltei a ter noção do perigo. Eu tive muita sorte. Muita sorte mesmo.
            Fazia um mês do sumiço do Thiago. E eu inclusive fui a casa dele várias vezes e ninguém atendeu. Quando uma pessoa atendeu - que foi nesse dia que começo a narrar agora - disse que tinha comprado a casa a menos de duas semanas e não sabia quem era o tal Thiago. Bizarro.
            Eu tinha uma aula com a personificação do demônio nessa tarde, então, fui em direção ao colégio F. Chegando lá, eu vi um colega de aula chegando ao mesmo tempo. Era o Lúcio. Pra mim, era só uma pessoa que não cheirava e nem fedia.
            - Opa, indo pra aula do Humberto? – Perguntei educadamente pro guri.
            - Não, não... Com esse eu já to fodido – risadas. Eu vou no atendimento do José.
            Gelei na hora. Tá certo que pra mim ele não cheirava nem fedia, mas o cara estava indo para a morte certa, eu não podia – naquela época – ver uma pessoa caminhando para o seu funeral e ficar com a consciência tranqüila.
            - Eu to pensando em dar uma passadinha lá no José mais tarde. De repente a gente se encontra por lá. – inventei na hora.
            - Ah, pode crê! Se falamo então. – disse ele ao me dar um tapinha no ombro e sair andando.
            Fui atrás dele escondido. Teve uma hora que ele quase me viu, mas consegui me esconder me jogando atrás do prédio do bar que ficava no pátio e esfolei o joelho. Nada de mais, exceto a ardência, mas, dane-se.
            Segui-o, como segui o Thiago, até ele entrar na sala do José enquanto eu me escondia nas escadas. 10 minutos. 20 minutos. Meia hora. Tédio. Escutei passos vindos do primeiro andar em direção a escada onde eu estava. Não havia onde eu me esconder, então, resolvi agir naturalmente, como se estivesse chegando agora no segundo andar.
 Era a professora Rafaela. É uma mulher de boa aparência, para os seus quase 50 anos. Mas o que tem de boa aparência tem de arrogância e amargura. Cabelos louros, provavelmente pintados, pois a sobrancelha destoa levemente dos cabelos – são mais claras - e tem poucas rugas no rosto. Bem vestida, com uma bonita calça jeans tradicional e uma blusa abotoada na frente cor verde escuro e alguns acessórios, como relógio dourado, brincos e colar de pérolas, além de estar carregando consigo alguns livros do Machado de Assis e outros autores clássicos do Brasil.
- Boa tarde, professora. – Virei de costas fingindo só saber que era ela quem se aproximava naquele momento, com um olhar curioso.
- Boa tarde. – Daquela forma agradável que já descrevi algumas vezes.
Para disfarçar, fui indo em direção a sala do José e esperei ela entrar na dela. Assim que ela o fez, botei o ouvido na porta da sala. Conversavam sobre química ainda. Esperei mais um pouco.
Aquela merda tava demorando, então, me sentei ali, no chão mesmo.
Não sei quanto tempo depois, escuto movimento na sala, então, aquele grito de novo e nem um segundo depois, o urro de desespero da pobre vítima. Peguei a barra da minha mochila, levantei, meti o pé na porta, abrindo-a violentamente. Mas era tarde e as cinzas do Lúcio já estavam no chão.
Olhei pra cara dele com toda a ira que pude juntar naquele momento e, ele olhou de volta com uma cara de surpresa e, quando bateu o olho no que eu tinha na mão, a expressão mudou de surpresa para medo. MEDO. Foi uma sensação maravilhosa. Assim como a sensação de ouvir o som característico da barra cortando o vento e em seguida estraçalhando o maxilar do desgraçado. Com a força do golpe ele girou duas vezes, da direita para a esquerda, caindo em direção a mesa dele que estava uns quatro passos atrás dele. Na queda, ele bateu com a cara na mesa e caiu no chão atordoado.
- Que horror... – Lúcia falou com um certo nojo na voz.
- Horror é o que eles faziam conosco. Agora me deixe continuar. Estamos no clímax.
Eu olhei nos olhos dele por um tempo que pareceu uma eternidade e, sinceramente, o que eu não senti foi pena nem remorso, então, resolvi terminar o sofrimento dele. Golpeei com toda a força que pude duas vezes a cabeça dele, transformando-a num guisado. Ofegante e tremendo por causa da adrenalina, ainda dei um chute nas costelas e saí. Fui em direção às escadas e quando eu estava chegando no primeiro andar, escutei alguém correndo no andar de cima, mas o som dos passos ia diminuindo, ou seja, ia em direção a sala do José.
Resolvi voltar para ver o quem era. Pensei que só podia ser a Rafaela e... Acertei em cheio. A vi entrando na sala do José. Espreitei em direção a sala do maldito assassino, então, escutei um som baixo vindo da sala. Algo como uma reza, mais precisamente. Em seguida, a voz foi aumentando de volume até que uma gargalhada histérica, igual àquela que as bruxas fazem em desenhos para crianças, seguida de um brilho negro e um estrondo, como o de um trovão, mas seco, sem aquele prolongamento. Voltei em direção a escada e desci alguns degraus, o suficiente para continuar enxergando o corredor e, pasme, saíram da sala a Rafaela e o José. O ultimo, totalmente inteiro, como se nada tivesse acontecido.

Dedicado ao Co-autor e grande amigo Thiago Ávila Pouzada

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

"O 'Cara'" - Capítulo 2

            - Opa! Como vai Dona Lúcia? Tudo Bem? – Perguntei ao chegar atrasado, para a reunião do pessoal. Lá estavam os mesmos de sempre, o cara que parecia o Che Guevara, só que com formigueiro no rabo e a veia com seios brochantemente grandes e caídos.
            - Tudo bem, Cara, e tu? Mais calmo? – perguntou ela com um sorriso simpático... Como é gata!
            - Melhorando, digamos.
            - Ok... Alguém quer começar primeiro? Ou eu preciso chamar alguém? – perguntou Lúcia.
            - Eu! Eu! Eu! – Levantei a mão, falsificando toda uma empolgação, porque sei que ela não quer que eu vá primeiro. Não depois da ultima vez.
            - Alguém mais além do Cara aqui?
            Nada.
            - Qualquer um? – Insistiu.
            Nada. Digamos que eu fiz um... Acordo... Bem educado e gentil com eles e eles me deixariam começar primeiro.
            - Certo – Disse ela com um desanimo camuflado por simpatia – comece.
            Antes de começar dei uma olhada nas caras daqueles abobados e vi que quando nossas visões se cruzavam, eles desviavam o olhar. Ótimo.
            - Muito bem, vou começar de onde eu parei semana passada. Onde eu estava? Ah, sim...
            - Oi, Cara, tudo bom? – Perguntou o professor José. Meu sangue gelou, fiquei sem voz e as pernas tremiam. Como? Como diabos? Eu estraçalhei a cabeça dele a cadeiradas!! Era pra ter sido decretado luto e minha cara estar em todos os jornais nesse exato momento! E o pior! Não era pra ele estar falando comigo! No mínimo ele tinha que fugir de forma histérica, não cumprimentar sendo simpático e educado. Meu Deus! Será que eu sonhei com aquilo?
            - O-oi, p-professor. Tu-tudo bom? – Gaguejei.
            - Tudo bem, com um pouco de dor de cabeça, mas passa.
            AI CARALHO!!!
            - Não tinhas que estar em aula agora não? São quase nove. – Ele disse olhando o relógio.
            - É... Tive um imprevisto em casa e me atrasei... Vou indo nessa! Tchau! – Não ouvi se ele me deu tchau, nem quis saber, simplesmente corri pra dentro da sala.
            Cheguei na porta da sala e bati. Pedi licença para a professora Cláudia, de biologia e entrei. No fundo da sala, como de costume, a turma de filha da puta que eu tanto amo. São seis desgraçados que – no momento – são inofensivos.
            A aula terminou e a próxima professora entrou. A Rafaela, de literatura. Oh Shit! Ela me viu todo ensangüentado! É agora.
            - Bom dia – Disse ela com seu jeito adoravelmente arrogante. Uma maravilha de pessoa.
            Ela deu a maldita aula dela sobre o romantismo e foi embora. Porém, ela vez ou outra me olhava, mas eu sentia que tinha algo de estranho naquele olhar. Tem alguma coisa muito estranha acontecendo aqui e sinto que preciso ficar alerta.
            Coincidência ou não, o Thiago não foi à aula naquele dia e o estranho é que as pessoas não pareciam sequer sentir a falta dele.
            Depois do intervalo – o recreio – teve a aula dele... Daquele... DAQUELE!
            - Cara... por favor...
            - CALA A BOCA VADIA! TU ACHAS QUE É FÁCIL? – interrompi a Lúcia.
            - Por favor, se acalma!
            - EU ESTOU TENTANDO!
            - Respira fundo, não me faça chamar a segurança, por favor!
            - Desculpe-me, é que é muito difícil pra mim lembrar...
            - Ok, ok! Vamos parar por aqui?
            - Não, por favor, eu preciso, vai ser de grande ajuda.
            - Certo, mas eu vou chamar os seguranças por precaução, ok?
            - Se eles conseguirem me deter, vá em frente. – Começou a se ouvir alguns choros e rezas na sala.
            30 segundos depois estavam lá os seguranças.
            - Como demoram... Eu poderia acabar com a raça de muita gente aqui nesse tempo.
            - A senhora precisa que o tiremos daqui agora? – Disse um armário falante vestido de preto para a Dona Lúcia, enquanto o outro se aproximava de mim.
            - É só por precaução, ele ainda é instável.
            - Ok. – Respondeu o armário.
            - Humberto.
            - Como, Cara? – perguntou Lúcia.
            - O nome do filho duma égua é Humberto, professor de física.
            - Parabéns, conseguisse te controlar. – Disse ela abrindo um sorriso lindo e sincero.
            - Eu disse que estou melhorando.
            - Consegue continuar?
            - Acho que sim, mas chamem reforços por precaução. – Falei olhando para o armário de preto que estava perto de mim.
            - Como preferir. – E não é que ela chamou mesmo?
            - Bueeeno! Vamos começar mais uma aulinha barbadinha de física, meus queridos alunos? – disse aquele duende macabro. Menos de um metro e sessenta de altura, porém a maldade residente naquele coração é imensurável, é o diabo em pessoa... – Ah, sim, estou com as provas corrigidas, e adivinhem só? A maioria já pode se considerar com o pé na cova. Vou chamá-los um por um e venham pegar sua prova. Dona Gabriela!
            - Oi. – respondeu a loira baxinha peituda e gostosa.
            - Vem pegar a tua prova.
            Ela foi até lá e quando ela tocou na prova...
            - ZERO! Conseguisse fazer a pior prova das quatro turmas de terceiro ano! HAHAHAHAHAHA
            E a pobre alma retorna chorando.
            - Manoel! – bradou ele – queres a prova ou posso só dizer a nota?
            - Quero a prova.
            - Ta, vem pegar, mas tirasse zero.
            - Lúcio! – nenhuma resposta – Lúcio? – nada. – Nem preciso dizer que esse já está morto. hahahahaha
            Não sabia como me sentir, afinal, tinha gente que realmente era pra estar morto e não estava, mas o maldito me olhou com a mesma cara da Rafaela... Meu Deus o que está acontecendo aqui?!
            - Cara?
            - Espera aí, ele te chamou de cara? – perguntou a Lúcia.
            - Não, é que eu não quero que esses otários saibam o meu nome.
            - Ah, como quiser, continua.
            - Presente, professor.
            - Não é a chamada animal, é a prova, e tu tiraste zero também! Menos um por causa dessa idiotice de “presente professor”.
            - Preciso contar aos amigos que foi aí que todo o inferno que até então parecia irreal, começou a tomar forma. Esse foi o dia que minha vida mudou pra sempre.
            Eu não tinha muitos amigos ali, mas tinham três pessoas que eu gostava bastante também, eram o Thiago, o Roberto e o Leonardo. Roberto e Thiago não foram naquele dia, e tiveram suas provas devidamente ridicularizadas também. Não entendendo como eu teria tirado zero já que eu tinha estudado muito praquela prova, fui falar com o Leonardo. Comparamos as provas e nossas respostas eram bem parecidas e as notas eram as mesmas. Zero. Leonardo se dava com um cara, o Diego. Eu não curtia muito o magrão porque ele era amigo dos 6 filhos da puta, mas... Era só uma antipatia por ser amigo de inimigos meus, não faria nenhum mal a ele, mas também nenhum bem. Então, Leonardo mostrou a prova para o Diego esse, que tirou 5 de 5, e... NOSSAS RESPOSTAS BATIAM. Cara, aquilo começou a fazer uma raiva gigantesca crescer.
            Infelizmente nós descobrimos isso tarde de mais, e o prazo de dois dias para se reclamar de correções já havia expirado. E o Thiago não aparecia e ninguém atendia na casa dele nem celular.
            No terceiro dia depois da entrega das provas, tivemos aula de novo com o filho do capeta. Ele chegou em aula pedindo para destacarmos uma folha do caderno, ditou um exercício e queria ver antes da segunda aula que ele ia corrigir e devolver no dia. Disse que ia nos dar um presente pro final de semana.
            Pois bem, fiz e entreguei. Dez minutos depois ele me chamou e me entregou. 0,3 de 1.
            - Melhor que zero... – falei e ele só riu com aquele sorriso... Maldito sorriso...
- Tudo bem, cara? – Lúcia perguntou e um armário já segurava o meu braço.
            - Tudo, tudo. – Ela fez um sinal e o armário soltou meu braço.
            Me sentei e fiquei olhando o exercício. Virei a página. Uma mensagem.
            “A tua imaginação não está brincando contigo.”
            Arregalei os olhos e olhei pro demônio. E ele simplesmente... simplesmente... SORRIU!
            Não lembro do que aconteceu depois, acordei no meu aposento com um galo na cabeça e o punho calejado.

Dedicado ao grande amigo e Co-autor Thiago Ávila Pouzada

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

"O 'Cara'" - Capítulo 1

     - Essa minha maldita vida começou quando eu resolvi prestar o teste de admissão do colégio F. Mas era o melhor colégio da cidade. Digo era, porque eu tive que por um fim naquele antro de demônios e traidores.
    - Ora, eu só queria que me deixassem em paz! Isso é pedir muito?
    - Eu era um cara quieto, na minha, não incomodava ninguém. Era apenas um invisível. Gostava disso e queria que continuasse assim. Mas NÃO!!! ELES TINHAM QUE CHEGAR AO LIMITE!! AO LIMITE!! -  e bati o pé no chão com muita raiva e força, fazendo um baque surdo na madeira alto o suficiente para assustar os que estavam presentes na sala.
    - O senhor está se alterando, Senhor... - disse uma moça que estava coordenando a reunião olhando a minha ficha.
    - Me chame apenas de "Cara" - interrompi a moça loura com rabo de cavalo aparentando uns 40 anos de idade, bastante inteira - entende? - com óculos com uma armação preta e grossa que contorna todo o óculos. Usava um batom vermelho, mas não muito gritante. Brincos prata e um jaleco branco.
    - Cara? - ela me olhou com um semblante de estranheza, mas dei a mínima.
    - Isso, Cara.
    - Certo - fez uma pausa - Cara. Está mais calmo?
    - Sim, senhora.
    - Ok, prossiga. - ela gesticulou com a mão
    - Eu passei os dois primeiros anos engolindo sapo, mas quando eu cheguei ao terceiro... - raiva, preciso me controlar... ufa, passou - E comecei a enxergar algumas coisas que se passavam lá dentro que eram muito bem camufladas. Pessoas que desapareciam, professores que não envelheciam, e acreditem, tinha gente ali com cara de mais de 100 anos - risadas quando terminei de falar isso.
    - Silêncio, turma, vamos deixar o Cara falar - Ela fez aquela maldita pausa de novo, isso te me irritando.
    - Um dia, eu vi uma guria, da minha idade na época, 16 anos. Muito bonitinha, lourinha, parecida com a senhora, dona Lúcia - apontei pra moça loura que está começando a me irritar quando faz aquela pausa pra dizer a minha alcunha. Voltando, ela foi na sala do professor José para tirar alguma dúvida - provavelmente - de química e... Nunca mais foi vista!
    - Ai Jesus! - disse uma velha afro, gorda e com seios que deveriam tapar a vagina, ao se benzer.
    - Fiquei intrigado com aquilo, passou-se um dia, depois dois, três, uma semana e nunca mais vi aquela guria. Então, um belo dia, outra vítima, dessa vez um guri, ele era meu amigo, chamado Thiago, foi tirar uma dúvida com o professor José na sala dele. Gente, eu juro que tentei de tudo pra que ele não fosse, mas não adiantou. ficou dizendo que eu estava inventando coisas e tal. Então eu disse pra ele que se algo ruim acontecesse eu não ia me responsabilizar.
    - Mas tu não tentou fazer nada pra ajudar teu amigo? - disse um cara barbudo que parecia que tinha um formigueiro na cadeira dele, simplesmente não parava quieto.
    - Eu segui ele. Fingi que ia embora e voltei. Vi ele atravessando o pátio do colégio indo em direção ao prédio norte, onde ficam as salas dos professores. Depois, de entrar no prédio, ele subiu as escadas e, quando chegou no segundo e ultimo andar, onde tinha um longo corredor, com 10 portas de cada lado. Ele bateu na oitava porta do lado direito. Cumprimentos. E a porta de fechou.
    - Hey! Hey heyheyeheyheyehey! deixa eu adivinhar, deixa! "E nunca mais foi visto" - disse o maldito barbudo com formigueiro no rabo ao me interromper e tentando imitar a minha voz.
    Usei meu melhor olhar de ódio e funcionou, ele até parou de se mexer, por cinco segundos, um feito, pode apostar.
    - Eu fui caminhando pé por pé, sorrateiramente, até a porta da sala que ele entrou, então eu escutei um som... AQUELE som! AQUELE MALDITO SOM! - e comecei a bufar.
    - CARA, TE ACALMA! - disse a moça loura, sem a pausa... Sorte a dela.
    Funcionou também, fiquei calmo. Foi um feito.
    - O som era um grito, mas era estranho porque não se escuta ele com os ouvidos e sim com a mente, um "OOOOOOOOOOHHHHHH!!" parecido com quando você está gargarejando água antes de cuspir na pia depois de escovar os dentes. Logo em seguida escutei o grito do Thiago. Algo totalmente desesperado, impossível de reproduzir aqui, mas era um misto de desespero, medo, horror e agonia. - a velha das tetas gigantes e caídas se benzeu novamente. Não pensei duas vezes. arrombei a porta, nada muito difícil de se fazer com aquela porta cor azul metálico mas de madeira de uns 40 anos de idade. Então presenciei o absurdo. O professor de química, estava rejuvenescendo, igual aquele filme "A Múmia", e o pobre Thiago se esfarelando. Pó, foi o que sobrou do meu amigo. O professor me olhou espantado, então eu peguei a primeira coisa que vi na frente e acertei a cabeça dele uma, duas, três vezes eu acho. Pelo menos, eu parei de contar no Três. Ah, essa primeira coisa que eu vi na frente foi uma cadeira de madeira maciça suficientemente pesada pra fazer o estrago que estou visualizando na minha lembrança. Sangue. Miolo. Mais sangue. Eu fiquei ensopado de sangue. Então, com medo e ainda atordoado com o que tinha acontecido, eu corri. Fugi chorando pela perda do meu amigo. No caminho eu esbarrei na professora de Literatura, a Senhora Rafaela. Ela me perguntou o que tinha acontecido e eu só consegui dizer "Está morto!!!" e continuei a correr.
    - Cheguei em casa, ninguém estava lá. Que bom. Sem explicação quanto ao meu estado e de minhas roupas. Tomei um banho, e botei minhas roupas para lavar e me tranquei no quarto e... simplesmente apaguei. Não sei como, mas apaguei. Magicamente. Acordei só no outro dia.
    - No outro dia, eu precisava agir naturalmente, então sai de casa cedo e fiquei vagando. Quando me dei conta, estava na frente do colégio. Tremi, foi como se eu tivesse sido guiado, ou sugado praquele inferno. Então, eu escuto uma voz familiar me comprimentando... - fiz uma interrupção de propósito.
    Todos me olhavam atentos e vidrados.
    - Algum palpite? - perguntei. Nada?
    O barbudo que incrivelmente estava quieto - acho que ele tava era se borrando nas calças, mas estava estático - disse: "O Thiago?"
    - Não! - Bradei. O professor José!
    Um alvoroço se instalou na sala. Caos. Gritos de medo. E a última coisa que eu me lembro de ouvir foi a dona Lúcia gritando para que todos ficassem calmos.


Dedicado ao co-autor e grande amigo Thiago Ávila Pouzada.