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segunda-feira, 2 de junho de 2014

Imortalidade

            Eu nunca suspeitei encontrar algo desse tipo num bairro como esse. Condomínio cercado, rádio-patrulha vinte e quatro horas por dia, alta sociedade, muros e cercas elétricas.
            Escutei movimento vindo desta casa e, cautelosamente, fui conferir. Havia um cheiro azedo no ar, mas desde que a água e eletricidade foram cortadas, esse era o aroma de qualquer lugar, igual a essência que eles transpiravam. O mundo, mesmo quando recheado das flores, exalava carniça onde quer que fosse. Ah, os novos tempos...
            Desci vagarosamente as escadas e ouvi um gemido. "Me azarei...", pensei. Segui sorrateiramente. Agora ouvia o som dos dentes arrancando pele, carne e tendões dos ossos. Martelo em riste, aproximei-me. Uma nova essência tocava meu nariz. Ferro... Ferrugem... Não... Sangue. Sangue fresco. Chegara tarde. E não por muito tempo. O porão escurecia a medida que eu descia. Acendi minha lanterna, mas ela parecia não funcionar. As paredes eram todas pretas, assim como chão e teto. Estantes e prateleiras e vidros e potes e velas mobiliavam o lugar. Corri a lanterna por todos os cantos e encontrei apenas um fazendo um banquete em cima do que pensei, a priori, ser uma simples mesa. Corri em direção à coisa e desci o martelo umas sete vezes em sua cabeça. Fora mais do que o suficiente para fazer o trabalho, porém, me empapou de sangue podre e carne morta. Analisei o redor para ter certeza de que estava sozinho. Limpo. Olhei para a vítima. Era uma linda mulher. Morena de pele branquinha como leite. Estava nua. Porque diabos uma mulher estaria nua com um deles?! Senti vontade de vomitar... A boca estava aberta e os olhos revirados. O pescoço e seio esquerdo haviam sido dilacerados e o sangue, apesar de coagulado, ainda era fresco. Mirei a lanterna na coisa que eu abati. Estava nu também. Observei atônito por alguns segundos. Corri a lanterna em todas as direções e comecei a entender. Havia candelabros e castiçais por toda a parte. Voltei até a cozinha, lembrei de ter visto alguns fósforos por lá. Acendi as velas e pude ver do que se tratava aquilo: era um altar de magia negra. Havia símbolos desenhados nas paredes, no chão e na "mesa", uma geladeira vermelha, livros e grimórios - um pedestal feito de um material que eu espero que esteja imitando ossos com um tomo aberto em cima - e dois cadáveres nus, o no chão e a outra no altar.
            Curioso, fui até o pedestal. O tomo era grosso, maior que O Capital ou Ulysses. "Imortalidade" estava escrito com tinta vermelho-sangue. A letra parecia feita a mão, e o papel, amarelado pelo tempo. A lombada era amarrada com sisal - esse era novo. Li algumas palavras e algo me chamou a atenção: "A ascensão do guardião se dará após o ritual. Implacável. Nada rasgará. Devorado o tempo será.". Um monte de besteira sem sentido. Como que alguém acredita nisso?! Como se não bastasse o apocalipse ter chego, sem trombetas ou cavaleiros - apenas carne podre ambulante - as pessoas fazem rituais... Tiram a vida de outrem para... Para...
            Lembrei que deveria arrebentar os miolos da guria. Olhei para a bela carcaça imóvel sobre o altar naquele porão macabro. As projeções do seu corpo, produzidas pelas velas dançavam nas paredes - cinco delas no total -, interligavam-se por extensões das sombras dos membros, formando um pentagrama. Não sei dizer se isso era proposital, mas, confesso que meu sangue gelou perante aquilo. Respirei fundo e apertei o cabo do martelo com força. Aproximei-me e brandi a ferramenta. Havia algo estranho no rosto dela: a serenidade tomou o lugar do desespero. Os olhos revirados estavam fechados e a boca escancarada havia cerrado. Ela parecia dormir tranquilamente. Eu tinha certeza de que não fora assim que eu à tinha encontrado, mas a memória começou a me faltar. A certeza e convicção se esvaíram, junto com meu ímpeto de quebrar-lhe o crânio. Tão bela... Algo me chamava ali. Era como se eu à conhecesse havia muito tempo. Tão bela...
            Sentei-me no chão. Curiosidade. Ansiava por algo. Esperava por algo. Fiquei olhando aquelas sombras dançando nas paredes. Havia uma música no ar e eu sabia disso. Apenas não conseguia de fato escutá-la, mas ela estava ali. Invadia os meus poros e penetrava no meu cérebro. Se tivesse um piano na minha frente eu poderia tocá-la, mesmo sem nunca ter... Eu já tinha ouvido isso, não lembrava onde. Comecei a repassar o tempo na minha cabeça. Pessoas... Apenas pessoas... Nenhum nome. Estranhei. Henrique? Diego? Douglas? Não... Marta? Janaína? Rafaela? Também não... Nada soava familiar. Meu pai era... Era... Como é?
            Eu sou o... Eu fui o...
            ...


            O tempo passou e eu não sabia o quanto. Levantei e olhei o livro. Um monte de palavras embaralhadas ali. Tentei ler e não consegui. Elas se perdiam na minha cabeça, e as que surgiam não faziam sentido. Ela. Eu precisava dela. Para quê?

            Por que ela não se transforma? Já faz muito tempo que eu estou aqui. Já faz muito tempo que ela está ali. Não tenho certeza se essas foram afirmações ou perguntas. As frases apenas chegaram à minha cabeça. Por quê? Por quê?
            Calmaria... Por quê?
            O quê?
            Eu sou...
            Quem?
            Ela se levantou.
            Por quê?
            Sorriu. Nua. Bela. Era ela... É ela! ELA!
            Tão bela... Ela! Tão bela...
            Terminou. Sim... Ela! Tão bela... Aqui!

            "Hora de dormir", ela disse.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Rugosidade

            O andar estalava os galhos a seus pés, enquanto a lua banhava o que restava dos seus cabelos. O peso da mochila forçava suas costas para o chão. Toda sua bagagem... João Vítor estava exausto e isso era bom. Era a primeira vez nesses últimos meses em que se sentia vivo. Até então, apenas respirava, comia, cagava, entrava nas filas de bancos e pagava contas de água e luz. Parou para tentar se localizar. Olhou para o céu e enxergou mais estrelas do que estava acostumado. Olhou ao redor e via apenas árvores de pouco mais de quatro metros dançando ao sopro dos ventos de novembro. Não fazia ideia de onde estava. Finalmente a satisfação. Sabia que estava em algum tipo de montanha, pois estava em aclive. Talvez na serra. Não lembrava como tinha conseguido sair das planícies e chegado tão longe - e isso não importava para si.
            Jogara o jogo da vida e perdera feio. "Derrotado" era o que pululava em sua mente. Na verdade, não apenas em sua mente, mas nas caras de todos a quem um dia conhecera. Percebeu que seu ritmo de caminhar diminuía com esses pensamentos e tratou logo de jogá-los barranco a baixo. O chacoalhar metálico produzido pela barraca que carregava na mochila fazia-o lembrar de que poderia ter montado acampamento a mais de - olhou para o céu para conseguir chutar o horário - três horas - não fazia ideia - atrás, não se importava. Em todas as noites anteriores tinha planejado tudo: onde instalar a barraca, o saco de dormir, a fogueira... Tudo para passar em claro ouvindo o estalar da lenha e sentir o calor se esvaindo quando cansava de alimentar a chama. Preferia dormir essa noite ao relento e virar janta de mosquitos - com sorte, de algum animal maior também - do que dar o azar de parar para pensar e reviver o passado que o atormentava.
            A última coisa que lembra daquela noite foi de ter escutado um uivo. Não sabia se aquilo tinha sido ação do vento ou de algum tipo de lobo ou cão selvagem. Todos os seus conhecimentos sobre a Terra Média, Westeros, Nárnia e Hogwartz não surtiam efeito no mundo real. Lembrou-se da dor de ter se desfeito de todas as suas miniaturas. Ateara fogo em seus livros e abandonara os seus videogames no meio da calçada. Vendera em um brik todos os seus móveis. Tudo. Cama, mesa, cadeiras... Suas roupas agora estavam em algum brechó, ou já vestindo algum poser que nem sabia a diferença entre um mangá shonen e shoujo. João Vítor voltou a si com o sol da manhã acertando-lhe o rosto em cheio. Tateou o corpo lembrando da possibilidade de ter sido atacado por um predador enquanto dormia... Tudo intacto. As pernas doíam, todavia. Abriu os olhos rapidamente e não viu ferimento nenhum. Era a exaustão. Boca seca. Não bebia nada há horas. Deu-se por conta de que existiam outros dois sentidos. Ouvia o mar. Não compreendera. Como era possível ouvir o mar se estava no meio das montanhas? Sentou-se e forçou a memória. Alguns flashes lhe invadiam a cabeça lembrando-lhe de algumas passagens de sua caminhada por entre propriedades rurais. O sotaque das pessoas que ouvia conversar quando passava por alguns bares, ou mercearias próximas as estradas - que tentava evitar ao máximo, para excluir a possibilidade de encontrar quem quer que fosse - era bastante diferente do que estava acostumado. Entretanto, o cheiro fraco, porém, existente, dava-lhe alguma certeza do que sentia. Por outro lado, poderia estar alucinando, o que seria perfeito. Pensou na probabilidade de estar enlouquecendo, então, sorriu. A visão se acostumara com a claridade e pôde enxergar que o seu entorno não mudara muito. As mesmas árvores e uma inclinação de mais algumas dezenas de metros.
            Os sapatos, a bermuda e a camiseta que lhe restara já estavam puídas e imundas. Era o segundo dia de subida. A barriga roncou e a boca continuava seca. Retirou do bolso um livrinho pequenino. Era um manual em quadrinhos de escoteiros. Os protagonistas eram Huguinho, Zézinho e Luizinho - sim, os sobrinhos do Tio Patinhas. Buscou ali alguma coisa sobre armadilhas para animais pequenos, como coelhos. Encontrou. Apenas não fazia ideia se, naquela montanha, havia coelhos. Deu de ombros e vasculhou sua mochila. Ainda tinha meio cantil d'água. Bebeu o menos possível para conseguir saciar uma fração da sua sede. O ruído do mar se confundia um pouco com o som do vento. Contudo, tinha certeza de que sentia o cheiro, trazendo, novamente, a certeza de que enlouquecia. Olhou para cima e procurou o sol. Ainda não estava a pino. Deveria ser nove horas. Buscou no manual algo sobre horário solar. Novamente encontrou alguma informação e julgou correta sua suposição. Notara que a subida estava mais íngreme naqueles metros finais. Calculou que levaria cerca de uma hora para vencer aquele último pedaço. Levou em consideração seu cansaço, angulação, desidratação, pressão atmosférica... Não... Respirou fundo. O grande problema até aqui fora exatamente isso: seus planos. Seus cálculos e planejamentos. Quando seu lado obsessivo entrava em ação, João Vítor entrava era pelo cano. Esboçara estratégias para fazer algo extraordinário por toda a sua vida - ou melhor, a partir do momento em que adquirira consciência dos impactos de suas ações sobre o caos da existência. Quando planejou vivenciar as amizades de forma mais intensa, tornara-se um inconveniente - era o que diziam, dessa forma ou com algum sinônimo. Algo parecido aconteceu em sua vida amorosa, e acabou virando um submisso. Recebera o fora, pelo que ela dissera ser "excesso de romantismo".
            Tantos cálculos, tantos planos... Descartes era um filho da puta com seus pontos eixos e retas.
            A vegetação, então, se alterou. As árvores deram lugar a capins e arbustos. O andar tornou-se menos laborioso, porque a inclinação também diminuíra. O solo era menos arenoso e mais rochoso e firme. Ouvia o gorjear de pássaros e o aroma da grama umidificada pelo vapor d'água que condensara das nuvens. Quanto a elas, era possível avistar várias tomando os cumes de inúmeras outras montanhas e regiões do vale que via à sua frente. Sentia-se no topo do mundo com aquela visão. Constatava o nada que era através daquela visão. As montanhas desenhavam ondulações na paisagem - algumas suaves, outras bruscas. As cores, os tons, as sombras... Era como se João Vítor observasse uma tela. A visão que só conhecia no imaginário ou na criação de pinturas de paisagens - digitais ou não -, que nunca lhe fizeram sentido, estava bem ali.

            Uma estrada contornava a escarpa lobo abaixo e era possível ouvir os caminhões que transportavam soja buzinando, freando e até mesmo pingando óleo. As folhas das árvores farfalhavam com a brisa do oceano. Sim, o mar estava lá. Era possível vê-lo a centenas de quilômetros diagonal a baixo no fim do vale. Por um momento ficou triste, pois a verdade é que não havia enlouquecido. A linha do horizonte existia apenas ali, naquele fragmento de cenário, o qual, João Vítor podia agarrar com o cerrar de uma das mãos, separando aquela pequena fração de todo o grandioso e infinito resto. Assim, o rapaz finalmente entendeu que a vida é implacavelmente rugosa.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Chainsaw Gore Tenebris

                A motosserra rugia no galpão de madeira empoeirado. O cheiro de diesel queimado e expelido do motor exalava trazendo não apenas uma marcha macabra - róóóón-tan-tan-tan-tan-tan - mas o perfume do terror. Carla tapou a boca com as duas mãos. Estava escondida atrás de um tonel de latão enferrujado. A iluminação do recinto era o luar que invadia por entre as venezianas e os espaços presentes entre as tábuas, que davam forma as paredes do galpão. A poeira que voava devido ao vento era iluminada pelo luar e girava e caía e subia, dançando com a sinfonia da motosserra. Ritmo compassado, marcado. "Róóóón-tan-tan-tan-tan-tan". O lunático com a serra caminhava lentamente a passos curtos e pesados, deixando grandes pegadas no chão empoeirado e, assim, trazendo novas partículas dançarinas ao espetáculo flutuante.
                Carla ouviu o demente se distanciar em direção aos fundos do galpão. Era a sua deixa. Rezava. Pedia forças. Comandava as pernas, porém, elas teimavam em apenas tremer e manterem-se atarraxadas e soldadas ao chão. Respirou fundo, mas, com todo o cuidado do mundo, para que o desgraçado não fosse capaz de ouvi-la.
                Enfim, quando os sons dos passos cessaram, deixando apenas o rugido da motosserra, a mulher conseguiu reunir forças e se levantou. Pôde ouvir o maníaco girar sobre o próprio eixo, mas já não importava mais. Não era mais o momento de hesitar. Correu! Correu como nunca correra antes em sua curta vida. Sentia medo como nunca antes sentira na sua curta vida. Vinte anos, não encontrara o príncipe encantado ainda, no entanto, sabia muito bem que os sapos estavam por toda a parte; Lutava pela vida como nunca antes o fizera. E aqueles malditos quatro metros até a porta do galpão pareciam quatro quilômetros. Os dois segundos de toda essa ação, pareciam duas horas.

                Foi então que Carla sentiu o metal aquecido pelo motor sendo enterrado em suas costas, acompanhado de um baque muito forte que a jogou no chão. Carla berrava de dor e desespero. O filho da puta havia arremessado aquela maldita motosserra em suas costas, que sentia a omoplata sendo destroçada junto com os músculos, tendões e cartilagens. A serra não parava de girar e cortava como faca na manteiga. O sangue escorria quente, a mulher urrava e o assassino caminhava lentamente em sua direção.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Uma esmola para Jesus


            Dois amigos caminhavam em direção a uma parada de ônibus próxima ao cemitério da cidade. Conversavam trivialidades e faziam piadas. A noite era ventosa e fria, porém, tranquila. Um sujeito que caminhava no sentido contrário, vestindo touca verde, uma grossa jaqueta de nylon azul e vermelha e manchada por coisas como graxa, cimento e sopa, e calças jeans rasgadas e desbotadas, os abordou:
            - Aí, mano, desculpa te incomodar... É que eu sou morador de rua, trabalho fazendo uns bicos aí, carregando cascote e tal... Não roubo, não sou ladrão, tá entendendo? E queria saber se podias me arrumar uma moeda aí, qualquer coisa, só para eu poder comer?
            - Claro, cara. - um dos amigos abriu a carteira e retirou uma nota de dois reais - Espero que isso ajude.
            - Po, muito obrigado! E desculpa qualquer coisa. Uma boa noite pra vocês. - e seguiu seu rumo.
            Alguns instantes de silêncio se fizeram, enquanto os três tomavam seus rumos.
            - Meu, porque desse dinheiro praquele cara?
            - Por que não? Não ouvisse o homem? Ele disse que estava com fome.
            - Todos dizem...
            - E outra, ele podia ser a reencarnação de Jesus. Se eu for bom, ele me leva para o céu.
            - Não viaja... - Um novo silêncio entre os dois se fez. Uma moto passou zunindo quase atropelando uma velha que atravessava a rua. Os cães latiam para os gatos transando em cima dos telhados e o cheiro de janta sendo requentada saía das casas. - Dava para a Igreja, então. - Quebrou finalmente o silêncio.
            O sujeito olhou pensativo para o céu. Reparou que a lua estava cheia, amarelada e parecia maior do que de costume. O vento soprava forte, fazendo o capuz da sua jaqueta ondular. As árvores curvavam-se a essa força majestosa da natureza. Um redemoinho de latas, folhas de papel, sacos de lixo e poeira se formava na esquina.
            - Melhor não.

sábado, 24 de agosto de 2013

Limbo

            Paulo não sabia onde estava. Não se lembrava de ter saído de casa naquele dia. Sabia que era quarta-feira, o dia estava ensolarado, os pássaros piavam, mas não se lembrava de ter saído do conforto de seu lar.
            Era um imenso corredor com um tapete vermelho, semelhante ao desses eventos de gala, com uma borda dourada, deixando descoberto uma faixa de menos de um palmo de largura nas laterais, que revelava um piso de pedras cinzentas acuradamente cortadas do mesmo tamanho. As paredes eram verde musgo e tinha uma janela em cada lado na metade do corredor. Supunha que era a metade, pois não enxergava nem o início e nem o fim da peça, apenas uma densa escuridão. O sol estranhamente entrava sob a mesma angulação e sentido nas duas janelas, de fora para dentro, projetando sombras bruxuleantes das cortinas de seda tão fina que pareciam transparentes, ao ritmo suave de uma refrescante brisa, que, assim como os raios de luz, projetava-se para dentro do ambiente convergindo para dentro do mesmo.
            Decidiu, então, caminhar para frente. Todavia, conforme caminhava, parecia não sair do mesmo lugar. As janelas permaneciam sempre à mesma distância, como se ao caminhar, o corredor se alongava. E mais, quanto mais progredia, mais intensa a brisa, que entrava pelas janelas, se tornava e, mais fraca a luz do sol ficava. Cada vez mais sem entender o que se passava, Paulo se desesperava. Começou a suar frio e sua respiração estava descompassada. Girou sobre os calcanhares e começou a correr. Corria como nunca o fizera na vida. Apenas notava que a luz diminuía cada vez mais e a brisa havia se transformado numa ventania. Olhou para trás e... SURPRESA! Era como se não tivesse se movido um centímetro sequer. Ali estavam as janelas e as malditas cortinas transparentes...? Não, elas não eram mais transparentes. Estavam adquirindo uma tonalidade bordô. Mas o que estava acontecendo?! Exaurido, o rapaz se curvou, colocando as mãos nos joelhos. Arfava e o suor escorria pelo rosto, juntando-se no queixo e caindo em forma de uma única gota grossa no chão. Reparou que seu suor estava formando uma poça negra no chão. Não era o tapete molhado que ficou mais escuro, mas sim uma poça negra como piche. Paulo caiu sentado. “O que é isso, meu Deus?!”, balbuciava repetidamente sem se dar conta que o fazia. A poça começou a se espalhar, como se tivesse criado vida. Ela se alastrava pelo chão e pelas paredes e subia para o teto. Em pouco tempo cobriu todo o corredor, pelo menos, tudo o que Paulo conseguia ver.
            Nesse ínterim, a brisa só aumentava e a luz do sol ia embora, trazendo mais e mais penumbra.
            Assim, o rapaz ficou imerso numa escuridão completa. Sentia a textura viscosa da poça, mas ela não parecia sujá-lo. Sentia – e ouvia – que ela borbulhava, mas não queimava.
            Começou a ouvir um ruído que parecia um gemido. Paulo tentava se manter são, tentava se manter, pelo menos, calmo, na verdade. Agora repetia: “acorda, acorda, acorda, acorda, acorda”, porém, sem sucesso. O gemido agora era alto. O jovem fechou os olhos e fazia o sinal da cruz e começava a balbuciar algum tipo de reza. Então, o gemido parou. Paulo estranhou e ficou em silencio por um tempo, mas mantinha os olhos fechados. Sentiu que o vento havia cessado também. Abriu lentamente os olhos. A luz do luar agora banhava o recinto. O negro havia sumido, deixando, no entanto, as paredes, o teto, e o tapete totalmente degradados, como se haviam envelhecido décadas: buracos, mofo e tinta descascada. As cortinas tinham uma tonalidade escarlate, mas estavam igualmente degradadas e mofadas.
            Da escuridão à frente, percebeu que uma silhueta vinha em sua direção. Junto com essa forma, retornaram os gemidos. O coração do rapaz disparou. Já não se perguntava mais o que estava acontecendo e nem onde estava. Essas, cada vez menos, eram suas consternações. A silhueta ganhava formas mais distinguíveis conforme se aproximava da luz azulada do luar. O gemido agora carregava junto um choro sofrido. Um choro de profunda agonia. Pelo tom, parecia ser uma mulher... Não, uma menina. Agora era possível ver que uma menina, de longos cabelos lisos e negros como a noite, escorridos na frente do rosto, que também era coberto por suas duas mãos, e vestida com uma longa camisola branca, poderia ser a fonte de tais sons fantasmagóricos. “Poderia” e “fantasmagóricos” porque, apesar de estarem ali apenas Paulo e essa nova personagem, os sons não pareciam vir dela. Ao chegar no meio do corredor e perfeitamente entre as duas janelas, a menina, que, agora, melhor visível do que nunca, estacou. Um breve silêncio se fez. Paulo se levantou e tentou falar com a menina, perguntou o que estava acontecendo e onde estavam. Nenhuma resposta. Ela aparentava ter dezesseis anos. Paulo deu um passo à frente, insistindo com suas perguntas. Ela baixou os braços, fazendo-os penderem ao lado do seu corpo. Os choros e gemidos retornaram mais altos do que nunca, e com um adicional: gritos. Gritos hediondos de todos os tipos. Gritos de desespero, gritos de agonia, gritos de pavor, de morte, de loucura... Risadas! Sim, risadas macabras e histéricas da loucura provocada pelo desespero. Os sons pareciam vir de tudo que era direção. Pareciam brotar das paredes, do chão, do teto, das cortinas, do luar, da camisola da menina, da própria menina que se mantinha inerte e com os braços pendidos ao seu lado.
            Paulo buscou toda a coragem e sanidade que lhe restava e tentou dar um novo passo a frente. O sucesso lhe deu coragem para prosseguir. Mais um, e outro, mais outro. Dessa vez os passos o faziam chegar mais perto das janelas e da garota. Quando se aproximou dela, percebeu que uma mancha vermelha se formava na altura do seio esquerdo da menina. Era sangue. Paulo correu em direção à menina e, assim que estava perto o suficiente para toca-la, ela é soerguida misteriosamente do chão e, projeta um urro gutural seguido de estalos, que pareciam um único e grave, vindo de cada osso de seu corpo e desabou, como se o seu corpo havia perdido a vida que possuía, como uma marionete na qual cortaram suas cordas, com os membros todos dobrados em ângulos totalmente incorretos. O caos formado com os choros, gritos e gemidos cada vez mais aumentava em quantidade de vozes e altura do som. O sangue vazava rapidamente, formando uma enorme poça no chão. Paulo se debruçou sobre a menina, tentando reanima-la. Quando tocou com o joelho no chão, percebeu que havia um leve relevo. Estranhou e rapidamente levou os olhos até o local. Era o rosto de uma criança. O rapaz gritou e levantou rapidamente, escorando-se na parede. Do ângulo que estava, conseguia olhar para o lado de fora através da janela. Nada além de uma relva e escuridão. Sentiu algo gelado tocar sua perna. Sobressaltado, olhou para baixo e viu uma mão... Duas, cinco, oito, treze e cada vez mais e mais braços e mãos saindo das paredes. Paulo pulou para o centro do corredor, onde os braço não poderiam lhe alcançar. Sentiu que pisava novamente em alguns tipos de caroços, e percebeu que aquele único rosto, agora havia se multiplicado em centenas. Centenas de rostos de crianças, adultos, homens, mulheres, velhos... Os gemidos cada vez aumentavam mais. Paulo não conseguia mais suportar o barulho e acabou caindo atordoado no chão, tentando tapar os ouvidos. Percebeu que a menina se sentou desengonçadamente e Parecia que ela recolocava os membros no lugar. Era como se fossem mãos invisíveis que a montavam. O rapaz tremia. Sentia que o pingo de sanidade, o qual tentava a todo custo se agarrar, escapava lentamente por entre seus braços. Sentia a textura da razão, gelada como argila, vazar por entre seus dedos, conforme apertava, tentando mantê-la ali, no seu devido lugar. A menina engatinhou até ele. Seus olhos estavam estalados e ela não parecia olhar para ele. Olhava em sua direção, mas, não pareciam olhar para ele. Ela girava a cabeça levemente para a esquerda, e depois levemente para a direita. Então, seus olhos adquiriram uma serenidade perturbadora, e os lábios uma inocência encantadora e o sorriso que se projetava por eles não exibiam emoção nenhuma. Paulo se encolhia em posição fetal. Os olhos da menina começaram a ser consumidos por chamas negras. Seu sorriso se tornou em uma risada, que se transformou em gargalhada. Paulo sentia um cheiro de enxofre saindo da boca da garota. O cheiro tornava a respiração praticamente impossível.
O rapaz gemia. Desespero, agonia, pavor... Loucura. Paulo não sabia o que estava na sua frente. Paulo não sabia mais quem era Paulo. Paulo não sabia mais se hoje era quarta-feira ou se era domingo. Paulo não era mais nada e nada mais era Paulo. Paulo gritava. Paulo tentava agarrar o que quer que fosse, o que quer que estivesse a sua frente, ao seu alcance, para tentar sair dali, mas não conseguia. Sentia alguém pisando em seu rosto. Via alguém tentando acudir uma jovem menina caída macabramente no meio de um corredor com paredes verde musgo e tapete vermelho, todo mofado e esburacado.

Palavras não se formavam mais no que sobrara de sua consciência, apenas gritava, chorava, gemia, puro desespero, agonia e loucura

sábado, 17 de agosto de 2013

O Autoflagelo de Quintos

            Estava tudo calmo no centro de comando quando, de repente, o alarme dispara. O caos toma conta. Soldados com seus uniformes brancos correm de um lado para o outro, profissionais altamente especializados no maquinário tomam seus lugares, e o general sai de dentro de sua sala, com um copo com uma dose de whisky vagabundo (com gelo) na mão direita e um charuto na esquerda.
            - Capitão Ribons! Situação? – Grita o arrogante general.
            - Senhor, a fricção externa está causando um aumento da pressão e a temperatura está aumentando gradualmente. Ainda é estágio inicial.
            - E os novos recrutas?
            - Estão se preparando para a missão.
            - E o canhão?
            - Já está sendo erguido. Neste exato momento em que falamos, um destacamento está se encarregando da preparação para o disparo.
            - Muito bem, capitão. Não me decepcione. Já erramos o alvo incontáveis vezes somente nessa semana. E o nosso retrospecto geral não é nada bom também.
            Nesse momento, o tenente Baahls se aproxima e interrompe a conversa.
            - Senhor – bateu continência – temperatura e pressão estão se aproximando dos níveis críticos. Canhão preparado e pronto para disparar.
            - E os recrutas? – Perguntou o general, sem muita paciência.
            - Ainda não estão prontos – rebateu de forma cordial.

            Nesse momento, recruta Zé conversava com um companheiro de batalhão. Estava excitado, muito ansioso e confiante.
            - Dessa vez vamos conseguir. Tenho certeza que o nosso pelotão vai dar glória a essa unidade.
            - Como pode ter tanta certeza? Até hoje essa unidade nunca acertou o alvo. Pra falar a verdade, eu nem sei o que estou fazendo aqui.
            - O general já traçou o plano, você estudou ele?
            - General... Enquanto o supremo comando não se der conta que só erramos por causa deles mesmo... Não há general que consiga traçar um bom plano.
            - O que quer dizer?
            - Quero dizer que, provavelmente, é mais uma missão suicida.
            - Como pode ter tanta certeza?
            - Antes de vir para esse regimento, já vi vários contando glórias de que seriam os primeiros a acertar o alvo, mas nunca chegaram nem perto. Não pode ser culpa de cada um de nós recrutas e...
            O general invade a sala e começa a berrar ordens.
            - Vamos, seus vermes incompetentes! Estamos prestes a disparar e não tem metade de vocês na estação de lançamento! Seus imprestáveis! – Assim, os recrutas, em total caos, correm para as saídas em direção a estação de lançamento. Zé segue a conversa com o colega.
            - Decorou o mapa? – Perguntou.
            - Nem me dei o trabalho.
            - Nossa, cara, nossa missão é de extrema importância... Devias te orgulhar... Olha aqui, eu fiz uma cópia para mim, apesar de ter decorado já, queres?
            - Tanto faz... – O colega pegou o mapa e o guardou no bolso do uniforme.
            Na estação de lançamento, o capitão Ribons, utilizando-se de um megafone, passava as últimas instruções, dividindo os recrutas em pelotões. Zé e o amigo ficaram no segundo grupo.
            - O canhão não suporta que todos vocês sejam lançados ao mesmo tempo, assim, pelas nossas contas, serão necessários três disparos para enviá-los ao território. Por uma maior chance de sucesso, os dois primeiros disparos terão a capacidade máxima permitida, o último grupo estará mais desfalcado, mas não será problema, uma vez que os dois primeiros grupos já deixarão o caminho mais limpo e também recursos extras. Se necessário, utilizem-nos. Uma boa sorte a todos e honrem o uniforme que vocês vestem! – Assim, um grande grito de “URRAAA!” ecoou pela estação de lançamento.
            - Capitão, pressão está em noventa e nove por cento. É agora. – Um sargento informou Ribons.
            - Aos seus postos! Aos seus postos! – Berrou no megafone, depois virou para o tenente Baahls e avisou-o, dessa vez sem o uso do megafone – Ao meu sinal... – Olhou para o General que aguardava observando os níveis de pressão em uma espécie de barômetro analógico. Cinco segundos depois, o general fez o sinal, e o capitão deu a ordem.
            O primeiro pelotão foi lançado pelo canhão e, menos de um segundo depois, o pelotão do recruta Zé é projetado.
            Zé recordava o mapa e todas as instruções e do treinamento de esquiva dos produtos químicos. Estava confiante. Foi despertado de suas memórias quando uma enorme força o fez voar pelo canhão. Feliz, ele se preparou para a aterrissagem... Quando saiu pelo canhão, observou que o ambiente encontrado não era o esperado. Estava voando pelos ares, em direção a um oceano infinito. Assustado e sem saber como reagir, acabou se chocando contra a água. O desespero dos pelotões era evidente. Não tinham sido treinados para isso. Não se alistaram para isso. Alguns pediam por suas mães. Outros se afogavam. O caos. O terceiro batalhão chegou e tiveram a mesma surpresa e a mesma sina. Zé lutava para se manter flutuando.

            De repente um barulho infernal, como o de mil bombas estourando ao mesmo tempo e, em seguida, um redemoinho colossal começou engolir a tudo e a todos. Os homens gritavam. Milhares. Não. Milhões de jovens soldados foram arremessados para morrer por causa de uma falha no plano do Supremo Comando. O nível da água começou a baixar a uma velocidade impressionante. Zé, em seus últimos suspiros de vida avistou uma caverna, para onde toda a água estava sendo levada e, em seguida, tudo escureceu.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Mephisto

Era um quarto minúsculo. As paredes descascavam e a tinta branca dava lugar a um mofo verde com algumas tonalidades amarelas. Francisco estava ali dentro. Sentia-se atraído por aquele lugar. Algo o arrastava até ali. Como havia chegado lá? Não sabia... Sabia apenas que lá estava. Uma força gravitacional obscura como o espaço sideral o sugava naquela direção igual a um buraco negro. Buscou uma janela para saber onde estava, mas não havia nenhuma. Uma luz iluminava o quartinho, mas não conseguiu ver a fonte. Era como se fosse de uma lâmpada incandescente de 40 watts, porém, como dito, não tinha nada. A luz simplesmente vertia do cômodo.
Percebeu que a parede a sua frente do cubículo, na verdade eram as costas de um armário e decidiu ir averiguar.
Nesse instante, uma velha senhora adentra o quarto. Conhecia aquela pessoa e sabia que era de longa data, porém, ao mesmo tempo, não fazia ideia de quem era. A fisionomia era de sua avó, mas não era ela quem estava ai, diante de seus olhos. Analisava aquela velha senhora usando calças pretas de lã, um casaco branco e um xale vermelho sobre os ombros. Usava, também, um grande óculos de armação dourada. Examinou a pessoa por um tempo brevemente eterno.
- Eu me sinto muito atraído por esse lugar. O que é isso aqui? – perguntou, enfim.
- Esse lugar possui uma carga muito forte mesmo... Mas, venha, deixa eu te mostrar. – respondeu a velha senhora. Não questionou, pois sentia que a confiança emanava dela. Foi quando se deu conta de que, o que menos fluía naquele lugar era o agradável. Tudo bem que era um lugar pequeno, mas a clausura... Uma claustrofobia começava a se manifestar. Sentia-se abafado, começava a respirar com dificuldade. Mesmo com a porta (única saída e única entrada) logo a sua frente, mesmo com um temor começando a tomar conta de seu estômago, juntando a um sentimento de alerta, não sentia a menor vontade de sair daquele lugar. Queria, mas não tinha vontade. Pensava, mas o corpo não obedecia, o que gerava mais temor... Começou a estranhar quando sentia era vontade de estar ali. As paredes pareciam fechar-se, o cheiro de mofo se alastrava, e a gravidade do buraco negro aumentava.
A velha caminhava em direção as costas daquele armário, quando notou que havia uma passagem, suficiente para passar um adulto – apertadamente – por vez. Chegando a passagem, reparou algo que parecia ser uma espécie de mini armário embutido na parede à direita. Sentiu uma espécie de campo gravitacional emanando dali, um campo como se fosse produzido pela eletricidade, como se houvesse ali, do seu lado, uma corrente de alta tensão, um gerador, transformador, etc. Mas era apenas uma porta dupla com pouco mais de um palmo de tamanho. A cor era prata, mas carregava, assim como todo o resto do cubículo, as marcas do tempo. Manchas negras e desgaste. Talvez não fosse de prata de verdade... Não sabia reconhecer. O estranho eram os puxadores. Eram dois cotoquinhos de madeira em exemplar estado de conservação. Totalmente lisos. Parece que havia sido lixado recentemente.
- Isso é um portal que leva as dimensões inferiores. Não deves mexer nisso agora. – disse a velha com uma voz indiferente ao prever que o rapaz fosse mexer ali.
- Como é que é?
                A senhora seguiu caminhando ignorando a pergunta de Francisco. Finalmente contornaram o armário. Ele era todo de madeira e pintado de branco. Assim como os puxadores do mini armário, estava em perfeito estado. Até um pouco antes da metade da altura, ele era cheio de gavetas. Três linhas de quatro gavetas. A outra metade eram portas duplas e iam até o teto.
                - Ah! – disse a velha senhora com prazer na voz – aqui está! – e olhou para o jovem com uma expressão muito séria.
                O jovem sentia o quarto totalmente fechado ao seu redor. Tentava, mas não conseguia comandar o seu corpo. Sentiu que o semblante da velha mudava e adquiria um tom sombrio. Um tom malicioso, confirmado por um sorriso que se formava gradualmente no canto da boca, conforme Francisco ia deduzindo o que estava acontecendo. Algo estava muito errado ali. Via seu corpo mover-se sozinho e sendo tomado por uma sensação de prazer. Nada haver com sexual ou perversões. Era como se fosse a satisfação de dever cumprido, aliado a uma descarga de adrenalina. Ele consegue mover a cabeça em direção a estreita passagem, mas o corpo não acompanhou. Frustrado, perdeu as forçar e a cabeça voltou para a posição anterior. Surpreendeu-se quando a velha não estava mais lá. Sumira como fazia o velho sábio num antigo desenho animado. Entretanto, a novidade era que uma gaveta estava aberta. Sentia um forte impulso. Queria pegar os objetos. Era um livro e um cristal... Parecia vermelho sangue, mas lembrava uma ametista. Uma urgência vindo de fora do lugar invadia seus sentidos. Sentia que suava frio, mas não conseguia mover as mãos nem os olhos para constatar. Percebeu que algo havia lhe prendido dentro de seu próprio corpo. Sentia uma escuridão ao seu redor. Sua visão, agora em forma de túnel focava apenas no livro e no cristal. Apanhou o livro. A capa era dura e de couro negro. Percebeu um pentagrama e uma cabeça de cabra na capa, desenhados com linhas douradas. Juntou toda a força que conseguiu e arremessou o livro, que se desfez em centenas, milhares de folhas, que choviam infinitamente dentro daquele lugar. Cansado pelo esforço, entregou-se e assistiu o sua mão apanhar o cristal.
                Uma corrente de ventos negros emanavam de seu corpo, fazendo as folhas girarem transformando-se em tornados de papel. Sentia as trevas rugindo em seu intimo e vazando por sua boca através de um berro gutural e hediondo. O que sobrava de sua consciência sabia que tinha caído em uma armadilha, que aquela não era sua avó já sabia, mas não suspeitava que era o que era. Um chamariz, um falso (ou verdadeiro) “mestre dos magos”. Sentia uma raiva como nunca havia sentido antes em sua vida. Algo que fazia desentendimentos no trânsito, serem uma brincadeira de roda; O ódio dos Skinheads pelos negros serem apenas uma paixonite reprimida; Católicos e protestantes irmãos brigando pelo lugar da frente no carro...
                Queria matar. Matar tudo e a todos. O simples pensamento da morte lhe enchia o corpo de um prazer – esse sim, semelhante ao sexual – que o tirava mais ainda de dentro do seu corpo. As luzes se apagaram... Não... Era uma nova sensação de visão. Era uma luz negra que criava formas e dimensões na escuridão. Correu em direção à porta e saiu do cubículo.
                Via-se em casa, agora. Nesse momento de sanidade, sua visão voltou ao normal. Olhou no espelho do quarto dos pais. Seus olhos eram dominados por chamas negras e fantasmagóricas. Labaredas que impediam de ver seus olhos, mas sabia que estavam ali. Algumas veias saltadas em seu rosto, braços e mãos também eram negras. Suas unhas deram lugar a garras pequenas, mas eram afiadas. Sabia que eram, pois estavam empapadas de sangue. Sua irmã entrou no quarto e fez contato visual com o que um dia fora ele. A luz do luar banhava o cenário de um massacre. Corpos em cima da cama. O jovem, ao ver a irmã, conseguiu, num esforço tremendo falar, entre dentes, um “corre!” rosnado.
                A menina loira correu. Dois segundos depois a nova visão macabra entrou em cena fazendo-o perder o controle mais uma vez. Para seu desespero, ele sabia que corria atrás da irmã. Desesperava-se porque começava a sentir a adrenalina, o prazer, de fazer o que iria fazer. Agora fazia porque queria. Estava perdido. As palavras fugiam de sua mente, deixando apenas sensações, instintos... “Matar” era o que vinha.
                Matar...
                Matar...
                Matar...

                E uma lua cheia vermelha tomava conta dos céus e parecia sangrar a cada nova vítima.

domingo, 26 de maio de 2013

July, a loirinha e eu

         Foi um bocado complicado prender a July de novo. Ela estava mais forte, o que fazia sentido, pois tinha feito um banquete. Não sobrou muito da loirinha. Não consigo sentir remorso, entende? A imagem dela chorando no chão, segurando o pulso que eu quebrei com a barra de ferro, espoca na minha cabeça pelo menos uma vez a cada duas horas. Entretanto, é tudo muito estranho, é como se fosse a imaginação trabalhando em cima de uma história que me foi narrada. É como se não tivesse sido eu... É como se tivesse acontecido em um filme. Não sinto culpa, não sinto remorso e nem excitação. Um vazio que, ao contrário dos vazios - que dilaceram o peito - este não me causa impacto algum. É como se algo dentro de mim tivesse deixado de existir. Sei que eu normalmente sentiria algo, que eu teria vontade de chorar, que eu teria vontade de vomitar, ao ver aquele monte de sangue e pedaços da massa encefálica no assoalho do corredor, na barra de ferro e na minha camiseta; É como se eu tivesse feito algo corriqueiro, como pegar o controle remoto pra ligar a TV, ou como se eu estivesse cansado e decidisse sentar.
         Ainda não sei por que a dei de almoço para a Juliana. Acho que eu queria ter certeza de que a loirinha estivesse morta... Ou melhor, de que ela iria morrer. Penso que no fundo no fundo, eu não queria tirar a vida dela, então, fiz isso pra amenizar a culpa dentro de mim.

         O que funcionou, eu acho.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

A demência, a putaria e o trivial: o monólogo dual de uma mente em debate


            Era uma manhã de sábado e não tinha nada para fazer. Eu tinha perdido o sono fazia mais de meia hora, mas ainda estava deitado na cama, com preguiça de levantar, ou esperança do sono voltar. Em todo caso estava ali, de bruços e atravessado, olhando para o tapete no chão. Eu tenho um certo medo da minha própria cabeça, coisa normal para quem já esteve a um passo da loucura por duas vezes, e provavelmente você não entendeu o que eu quis dizer com isso. Contudo, isso não vem ao caso.
            Minha mente viajava a mil por hora e eu posso afirmar com toda certeza que não havia bebido e nem me drogado de qualquer outra forma, é pura e simplesmente a minha cabeça entediada e um tanto ansiosa, sabe-se lá por que, que funcionava, através de uma espécie de diálogo comigo mesmo.
            Pensava em sexo, porque tinha acordado de pau duro, mas não tem nada aqui haver com masturbação, fique tranquilo. Logo em seguida vieram algumas ideias muito ruins sobre o que escrever. Algumas putarias, mas não sou muito fã de escrever putarias. Aconselho que assistam filmes, é muito melhor. Com isso, perguntei-me: pra que escrever putaria? Que vão comer uma mulher, oras! Se não conseguem conquistar uma, que paguem. Então me lembrei de músicas funk... Na verdade, fui forçado, pois um vizinho havia começado a escutar isso a todo volume. Dei-me ao luxo de prestar a atenção em uma letra e cheguei à conclusão de que eu assistia a um filme pornô pelo rádio. Era um festival de passar a piça na cara dela, de foda de quatro, de foda papai-mamãe, de gozadas, de mamadas... Tudo isso com crianças menores de dezesseis anos –as novinhas. Fico pensando que se censura tanta besteira hoje em dia, como bixas se beijando na rua, desenhos animados adultos, que são passados para as crianças, só porque são desenhos animados, até propagandas de cerveja e perfume (procure na internet por uma protagonizada pela Keira Knightley), mas permitem filmes pornôs no rádio e a qualquer hora. As mulheres que participavam do filme até gemiam. Disk Sex, total. Isso me levou às feministas, que lutaram muito e conseguiram a incrível façanha (sem ironias aqui) de desassociar – agora essa coisa toda está começando a voltar - a ideia de mulher-objeto nas propagandas de cerveja, mas ficam rebolando o rabo quando toca uma merda dessas. O que me levou a outra ideia: Porque não conseguem derrubar o funk? Simples, elas gostam de tomar umas boas pirocadas e que cantem sobre as façanhas, afinal, é a liberdade sexual. Depois de meia dúzia de pirocadas e um bom e generoso pé no meio do rabo, elas saem postando na internet que nenhum homem presta, mas se atiram pro primeiro sertanejo que passa com um Camaro, ou Dodge Ram, ou um funkeiro com uma barra forte e uma caixa de som de quarenta reais conectada a um mp3 player do camelô.
Incongruência e extremos.
            Justifiquei-me que não sou machista, afinal, machista é quem curte um macho, e isso, definitivamente, não é pra mim. Por isso que, na maioria das vezes, minhas heroínas são mulheres, algumas poderosas, outras femme fatale, outras inteligentes, outras lindas de doer, e até mesmo meigas, mas nunca burras... Nem feias... Se eu disser que é porque não existe mulher feia, serei hipócrita, já vi cada coisa nesse mundo...  Mas enfim, imaginar mulher bonita é crime? Apenas uma imposição inconsciente da sociedade e pelos artistas. Pra quem acha que isso é coisa da vida de hoje, leia Iracema, Amar, verbo intransitivo (um ótimo roteiro de filme pornô B)... E quer melhor descrição de beleza de um substantivo feminino do que a Canção do Exílio?
            De qualquer forma, seguirei escrevendo sobre mulheres lindas, inteligentes e poderosas, e você, que acha que eu sou machista, lembre com bastante ódio que elas são tudo o que você sempre quis ser.
            Revirei-me para outro lado, vendo que tudo isso que eu estava pensando não fazia sentido algum, ainda mais porque eu imaginava tudo com uma forma de diálogo, entende?
            Depois pensei em mídia, o papel que essa porcaria tem em cagar em cima de qualquer coisa e vomitar asneiras, do tipo “dar direito aos homossexuais fará com que todo mundo vire homossexual”. Basta estudar, não muito, só um pouquinho, de história e lembrarmos que negros não eram gente até a abolição da escravatura, ou melhor, até a Inglaterra precisar de mercado pra vender suas quinquilharias industrializadas. Enfim, não me lembro de ninguém ter virado preto, já que os bros estavam em “alta”.
            Ainda sobre a mídia: o enaltecimento de tudo que é chinelagem. Já é a terceira novela em que a personagem principal é favelada. Minha gente... Entendam de uma vez: ser favelado não é legal, é uma consequência de má administração da máquina pública e um descaso com os menos favorecidos. Ninguém que está na favela gostaria de ser de lá, sabendo como é morar em um bairro tranquilo e de riqueza. Só a classe média boçal brasileira acha interessante e intrigante e fodasticamente maravilhosa toda e qualquer forma de expressão advindas daqueles lugares miseráveis e com falta de estrutura, onde as pessoas são mantidas lá dessa forma por uma simples questão de curral eleitoral.
            Falei que não gosto muito de escrever sobre putaria, mas, aqui vai a maior de todas: um papo cabeça, com a minha cabeça, sobre política. Mas não aquele esperneio por maiores salários ou alunos violentos (fazendo uma retomada a questão da educação falado a dois parágrafos atrás). Até gostaria de ter um, pra poder enfiar uma ou duas porradas no meio da cara e alegar legítima defesa.
Lembrei-me do dilema brasileiro entre uma pseudo-esquerda e uma direita radical e conservadora (privatizadores aliados a católicos e evangélicos, todos com um patrimônio que daria inveja a muitos países). Lembrei-me dos seus respectivos militantes, que, se deixar, enfiam as bandeiras uns nas uretras dos outros em meio a tanta pancadaria que o encontro entre duas militâncias rivais poderia proporcionar - outra coisa que adoraria ver - e, depois, faria questão de cuspir sobre cada um dos que estivessem deitados e arrebentados no chão, afinal, estão ali, estupidamente espancados em prol de uma causa ou o que for, enquanto que nos bastidores da política, é pastor chupando pau de padre, padre dando cu pra comunista, comunista enfiando o dedo no cu de privatizador, enquanto esse enxuga a porra da boca com a grana da última propina de uma multinacional que financiou a putaria toda.
Então, enchi o saco e levantei da cama.

domingo, 21 de abril de 2013

Encerramento

            Franco despertou frustrado naquele dia. O caso havia se encerrado a mais de cinco anos, mas seu subconsciente volta e meia resolvia pregar-lhe uma peça. Era sempre a mesma coisa. Chegava ao lugar onde a pessoa estava. Quando a avistava, sentia o cérebro remoendo. Dizia-lhe “Afaste-se! Não faça contato”. Da primeira vez conseguia resistir a tentação, entretanto, logo a pessoa aparecia na sua frente novamente, e ele não conseguia resistir.
            - Pô... Faz tempo que não vens me visitar, heim?! – E a pessoa abria um sorriso extremamente convidativo e simpático.
            - Desculpe-me, mas é que eu fico meio sem jeito de aparecer e... – Respondia encabulado.
            - Que é isso... Podes vir. Sabes que estás sempre convidado. As portas estão abertas. – A pessoa não desmanchava o sorriso.
            Sentia, sobretudo, admiração. Era uma pessoa fantástica. E se emocionava sempre durante esses sonhos.
            Porém, o despertar era sempre frustrante, melancólico... Como uma manhã chuvosa do mês de junho.
            Franco levantava da cama e esta sensação lhe corroia durante o dia inteiro. Por vezes, levava um ou dois dias para amenizar. Durante os primeiros meses, após a despedida, os sonhos eram muito frequentes – quase que diários – mas o passar do tempo foi suprimindo a periodicidade. Três anos depois, a ocorrência era apenas semanal, e hoje quinzenal.
            Apesar de toda a frustração, sentia, no fundo da alma, que gostava dos sonhos. Não sabia o porquê. Talvez fosse uma forma de manter contato com um passado distantemente recente. Sentia que não valia a pena ficar pensando a respeito porque se o fizesse enlouqueceria, e quando não o fazia, enlouquecia.
            Sentia que deveria ir até lá. Que o estavam chamando. Já era hora de um verdadeiro encerramento. Determinou-se. Criou coragem. Tomou seu café...
            E a vontade passou.

terça-feira, 9 de abril de 2013

As Crônicas de Folsom - A estrada de ferro pt. 3 de 3

            - Eu estou em um trem? É isso? – Perguntou para aquela figura infernal que sorria exibindo, no mínimo, o triplo de dentes que um ser humano possui, sendo todos pontiagudos e perfeitamente (e assustadoramente) brancos.
            - Isso mesmo, gênio! – Zombou e caiu numa gargalhada grave e desprovida de senso de humor genuíno. Era algo mais compulsivo e insano, mostrando a Billy que era a mesma que ele ouvia anteriormente e encerrando o mistério de sua origem.
            - Mas o que diabos eu estou fazendo aqui?! Eu estava no meu caminhão e...
            - Com licença, senhor. – alguém lhe falou enquanto cutucava o seu ombro direito por trás. Era possível sentir o fio de uma garra afiadíssima. Billy girou sobressaltadamente sobre seus calcanhares e viu um homem trajando um smoking negro finíssimo, gravata borboleta, cabelo e barba aparados impecavelmente... Porém sua pele era tão pálida que chegava próxima a uma tonalidade azulada. Tinha os olhos totalmente negros e as garras, que agora se revelavam presentes em cada um dos seus seis dedos das duas mãos, tinham todas uma tonalidade escarlate e um brilho que, ao oposto do que a cor sugeria, carregava uma sensação gelada que subia pela espinha de qualquer um. – O senhor gostaria de um charuto ou de alguma bebida? – Perguntou com um tom convincentemente e extremamente educado e sincero. Sua voz era suave mas penetrante. Não se podia dizer se era uma voz grave ou aguda de mais. Era um equilíbrio perfeito.
            - Mas, afinal, onde estou? – Só conseguiu pensar nisso.
            - O senhor se encontra na ferrovia Thunder Dope. Estamos a bordo do Caronte III a caminho do Styx. – e lhe sugeriu o charuto e uma garrafa de licor. Billy estacou por um momento sem dizer nada.
            Nessa fração de mudez, só se ouvia a gargalhada daquela criatura que utilizava roupas de maquinista.
            Então, Billy deu de ombros e pegou um dos charutos e a garrafa.
            - E quem é você? O Diabo, eu presumo...
            - Oh, não senhor, não... Sou apenas um humilde condutor... – E estalou os dedos. Na escuridão do fundo do vagão, abriu-se uma porta. Selvagens labaredas lambiam o vão da mesma, cuspindo de suas entranhas uma silhueta que se aproxima a passos hesitantes. Um par de saltos altos ressoava. Era possível distinguir que os contornos pertenciam a uma mulher e, gargalhadas depois, que já haviam saído da zona do “aterrorizante” e caminhado, diferentemente da mulher, a passos largos e decididos para a margem do “irritante”, podia-se distinguir os seus traços com detalhes.
            Era uma jovem com cabelos ruivos – laranjas como carvão em brasa. Seus olhos verdes como esmeraldas exibiam uma expressão de profunda agonia e manchas de lágrimas de sangue, já negro, pútrido e coagulado, escorriam dos olhos até a ponta do queixo. No entanto, ostentava um lindo sorriso. Dir-se-ia que era a mulher mais feliz do mundo. Entretanto, fungava e soluçava como fazem os chorosos, o que tornava o sorriso algo misticamente congelado e amarelo. Vestia um collant preto, saltos altos, uma gargantilha com espinhos de ossos, e possuía um lindo corpo. Diferente do maquinista e do condutor, tinha um aspecto totalmente humano. Em suas mãos, carregava uma bandeja de prata com uma caixa de charutos, whisky, absinto, vodka e toda a sorte de copos.
            - Essa é Sabrina. Ela será a sua garçonete. Estará eternamente a sua disposição.
            Billy arqueou as sobrancelhas exibindo toda a sua surpresa e deu uma boa examinada na moça.
            - Para o que eu quiser? – Perguntou.
            - Para o que quiser. – Respondeu o condutor.

             Billy deu de ombros e sorriu. Só esperava que o inferno fosse um ótimo lugar.
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Inspirado nas canções "Estrada de ferro Thunder Dope", "Todo ódio da vingança de Jack Bufallo Head", "E tudo vai ficar pior" e "Quanto mais feio" do Matanza, e "I Still Miss Someone" de Johnny Cash

sexta-feira, 29 de março de 2013

As Crônicas de Folsom - A estrada de ferro pt. 2 de 3

            Viu-se de volta ao saloon. Dessa vez bebia. Bebia para esquecer Mary Ann. Sabia que jamais iria conseguir... Aqueles olhos azuis... Os via em toda a parte. Até hoje... Oh, Mary Ann... Era a mulher perfeita. Por que ele tinha que ter ido ao cabaré naquela noite? Era rotina já, sim, mas não confiou no seu instinto. Sempre confiava nele quando a situação ficava feia. Mas naquele dia... Mas a puta morena era muito gostosa...
            Ela tinha exagerado também, afinal, o adultério não era privilégio apenas seu, pensava. Sabia que ela dava seus pulos. Tanto que tinha despachado dois... Ou mais... Não lembrava ao certo, entretanto, pegou a todos no ato. Contudo, entendia porque ela fazia isso. Mary Ann, ao ser pega traindo, sentia-se mais amada do que nunca, pois sabia que Billy iria marcar o seu território. Iria tomar de volta para si o que era seu de direito. À força.
            Porém, a recíproca não era verdadeira. Ela jamais perdoaria a traição, ainda mais com uma puta.
            Oh, doce Mary Ann...
            Ao longe, ouviu o apito de um trem, mas a lembrança da amada, apesar de dolorosa, prendia-o ali.
            O apito aumentava.
            Oh, Mary Ann!
            Dessa vez o apito arrancou-o de lá e o arremessou de volta ao mundo dos despertos. Meio grogue por causa do litro de Jack Daniel's, do qual só sobrou a garrafa no chão da cabine do caminhão; do baseado caído sobre a enorme barriga, que acabou queimando a camisa antes de se apagar. Olhou em volta. A sua esquerda, viu uma luz muito forte, que o fez girar rapidamente a cabeça na direção oposta. O mundo girou mais rápido ainda, causando náuseas, e o apito, agora, era ensurdecedor. Quando tentou xingar a coisa e sentiu o vômito subindo-lhe a garganta.
            O caminhão tremia e estalava. Os ruídos eram como se estivesse dentro de um liquidificador cheio de pedras. O último apito, que ainda soava, tornava-se cada vez mais alto e já beirava a loucura. Então, um estrondo explode ao seu lado, arremessando-o violentamente para a direita. A porrada foi tão forte que apagou Billy instantaneamente.

            Ao acordar, estava em um lugar rodeado pela penumbra. Havia um círculo de luz a sua frente, como se fosse criado por velas, porém, por mais que procurasse, não conseguia encontrar a origem de tal fenômeno.
            Levantou-se com dificuldade, devido a uma estranha falta de força nas pernas e uma constante vibração suave - com picos mais violentos e periódicos. Começou a tatear as paredes ao redor, tentando se situar. Sentia que eram todas muito frias, mas feitas do mesmo material. Metal, presumia. Pensou que poderia estar dentro de um de container, mas aquela vibração cadenciada, a qual conhecia bem, dava-lhe uma pista.
            Então ouviu uma risada. Ela era grave, potente e frenética. Olhou ao redor e não viu ninguém. Num primeiro momento, era como se a risada saísse de toda a parte. A iluminação começava a se expandir aos poucos, e ele pôde ver que, de fato, as paredes eram feitas de metal. Pareciam enferrujadas. Era um misto de tons como ocre, laranja e escarlate. Um medo súbito do desconhecido começou a se apossar de seu corpo. Seus pulmões hiper ventilavam e, assim, começou a sentir um forte cheiro de urina, sangue e fezes.
            Uma névoa amarelada extremamente mal cheirosa e sufocante começava a tomar conta do ambiente. A risada continuava no mesmo tom, mesmo tendo já se passado quase um minuto. Era como se a pessoa que risse, não fazia o menor esforço, ou tinha um fôlego infinito.
            Assustado, suas pernas tornaram a falhar. Tentando buscar o equilíbrio, escorregou em algo úmido e caiu. Pelo cheiro, notou que era sangue. Levantou-se tentando manter a calma e, agora, a parca iluminação tomava conta de todo o lugar. Pôde perceber, assim, que os tons escarlate - não só nas paredes, como no chão e no teto - eram de fato sangue. Algumas manchas eram frescas, outras eram do plasma já coagulado.
            Quando tornou a olhar para frente, viu algo novo: um homem trajando um macacão jeans azul todo manchado de óleo e uma espécie de cartola listrada verticalmente em branco e azul. Ela tinha uma aba da mesma forma que um boné, que fazia sombra aos olhos. Esses, por sua vez, emitiam apenas um brilho amarelo como enxofre. O sujeito tinha a pele toda vermelha com grossos pelos pretos que lhe saiam pelos braços. Estava de pés descalços e ostentava um fino bigode que acompanhava a coloração dos demais pelos do corpo.

            Atrás dele, via algo que não estava lá antes. Aquilo se assemelhava a uma fornalha, cuja as labaredas de fogo eram cuspidas ao teto e, por vezes, engoliam aquela figura, que não parecia se importar. Billy olhava sem entender, e a asquerosidade apenas ria.

sábado, 23 de março de 2013

As Crônicas de Folsom - A estrada de ferro pt. 1 de 3

            Encontrava-se em um saloon. Via, no palco, três dançarinas (duas ruivas e uma loura no centro) fazendo uma performance bastante quente ao som de um piano bastante animado com um pianista mais animado ainda. Era negro e vestia um terno branco... Não! Pérola, e um chapéu da mesma cor com uma fina faixa preta ao redor. A mão direita segurava um caneco de vidro cheio de chope, um charuto na boca e... Bom, bizarramente o homem só tinha essa mão, tornando o som proveniente do piano algo impossível naquelas condições, porém, de qualquer forma, saía o som dali, e um som realmente bom, acompanhado por outro negro - esse era cego, não lembrava como sabia disso, pois, ele cobria os olhos com óculos escuros -, fazendo um solo com sua fender strato sunburst visivelmente muito velha (ou mal cuidada), embalando um blues deliciosamente sensual.
            Os demais trastes presentes no saloon, párias em geral, eram desde bêbados e viciados em jogo a assassinos e assaltantes de bancos. Os que não tinham seus olhos grudados nas mulheres, tinham-nos grudados nas bebidas ou no poker. Texas Holden... Alguns jogavam Black Jack também.
            “Eu já vi isso!” Pensou.
            Olhou ao redor e se enxergou em uma das mesas. Lembrou que as coisas não iam muito bem naquela hora.
            - All in! – vangloriou-se Buffalo Head ao fazer a sua aposta. Era um sujeito que a simples visão dava arrepios. Possuía uma cicatriz que saía debaixo do tapa olho esquerdo e seguia até o pescoço. Usava uma jaqueta de couro preta e um chapéu branco sujo e todo manchado. Mais precisamente: trinta e duas manchas. Todas seguindo mais ou menos a mesma tonalidade vermelho-alaranjado. Conta-se que cada mancha é o sangue de uma vítima diferente, algo que o desgraçado carregava como um troféu, e também um aviso.
            Mas, Billy Cash não se intimidava com essas estórias para boi dormir. Na verdade, tinha a opinião pessoal de que foi apenas alguma puta menstruada que usou aquele chapéu para se limpar. Sua maior prova de que, talvez, não estivesse tão fora da realidade é a de que ainda estava vivo, mesmo nunca tendo feito o menor esforço para esconder essa teoria. E na pistola se garantia. Era conhecido por ser o saque mais rápido por essas bandas. E todos os que duvidaram de SUA lenda, já não respiram mais.
            Billy tinha conquistado uma soma interessante naquela noite. Daria para passar o mês folgado e ainda comprar um bom presente para Mary Ann, porém, essa última mão foi um desastre. Estava tão transtornado que Buffalo Head percebeu, por isso pediu “All In”.
            O desgraçado, distraído, já comemorava. Billy, então, sacou a pistola e disparou duas vezes. Uma para cada pulmão, sua marca registrada.
            Deliciou-se ao rever a cena. Mas havia algo estranho. Perguntava-se como era possível rever aquilo. Ainda por cima, vendo a SI MESMO, como se fosse um expectador, e não protagonista. Olhou novamente em volta. Excetuando os músicos, as mulheres – que pararam de tocar/dançar assim que os tiros foram disparados, congelando o ambiente numa tensão macabra e fúnebre – e o porco abatido, todas as pessoas tinham o mesmo rosto. Ninguém reagiu. Ninguém disse nada, a não ser as meninas, que haviam dado alguns daqueles deliciosos gritinhos que elas costumam soltar quando se assustam. O piano "automático" seguia solando o blues. Cinco segundos de inanição se passaram e a dupla de músicos voltou à ativa (o negro do piano apenas retomara sua performance), as meninas a dançar sob o pesado olhar do dono da espelunca, e os clientes a beber e jogar, enquanto Billy recolhia os espólios da noite sob o testemunho indiferente dos demais. Alguns estavam em posição de ação, para o caso de uma briga generalizada - o que não aconteceu. Ninguém gostava de Bufallo Head, e ninguém iria procurar honrar a memória de um desgraçado como aquele. Pelo menos, nenhum dos presentes.
            Num piscar de olhos se viu na casa de seus pais. Tinha oito anos e estava escondido debaixo da janela do quarto. Alguém atirava. Lembrou-se imediatamente da situação. Uma discussão entre o pai e os vizinhos havia custado a vida do seu velho. Agora, ele e a mãe lutavam pelas suas. Tudo por causa do funk a toda altura que o corno fazia questão de ouvir as nove horas da manhã de domingo.
            A mãe jogou-lhe um dos revólveres favoritos do pai, gritando as seguintes instruções: “Aponta o quadradinho para o meio da testa do filho da puta e esmigalha o gatilho!”. Já tinha visto o velho fazer isso. Parou. Pensou. Lembrou. Pensou de novo. O filho da puta atirava em direção a sua mãe. Estava escondido perto do carro, ao lado do corpo do pai. Fez mira. Respirou fundo e fez o que a mãe ordenou. Três disparos. Silêncio mortal. Pai vingado. Paz restaurada.

            - O próximo passo é aprender a atirar bêbado, pra lá adiante não levar a pior. – Disse a mãe abraçando-o e lhe dando um beijo carinhoso na testa enquanto as lágrimas de ambos rolavam.