terça-feira, 8 de novembro de 2011

"Algo que você não consegue entender" - O médico pt.2

    O estúdio é todo forrado com material isolante acústico e coberto por uma espécie de carpete preto, inclusive nas paredes. Tinha uma mesa de som com 10 canais, uma bateria, baixo, duas guitarras, três pedestais com um microfone em cada, um amplificador para cada guitarra e baixo, quatro caixas auxiliares para melhor distribuir o som dentro da peça junto com as vozes, e um armário de metal de duas portas.
    E tinha uma banheira no meio do recinto.
    Uma banheira, dessas antigas, branca e com patas douradas de ferro.
    Gabriel caminhou vagarosamente até a banheira e viu que tinha uma jovem ali. Ela estava com as mão amarradas às costas, assim como os pés, que também estavam amarrados um no outro. Tinha um pedaço de pano servindo de mordaça na boca. Estava desacordada.
    Foi até o armário de metal. Pegou um par de luvas, um par de sacos plasticos, um tapa pó, uma máscara, dessas que os médicos e dentistas usam, uma viseira de acrílico, semelhante aos EPI's de marcineiros e uma touca de plástico verde clara.
    Vestiu todo os aparatos. Cobriu seus pés com os sacos plásticos e foi até a banheira.
    Ficou admirando a jovem. Ela vestia uma blusa branca com uma estampa da Betty Boop. Calça suplex azul modelando um corpo já deliciosamente modelado. Seus cabelos eram negros. Se ela estivesse deitada no chão do estúdio, poder-se-ia dizer que a menina não tinha cabelo, tamanho seria o mimetismo. Calçava tênis branco com detalhes em rosa. Com certeza ela estava praticando exercícios.
    Gabriel estava extasiado com a bela menina. Ficou adimirando-a por um tempo. Viu sangue em sua boca. Com todo o cuidado, girou a cabeça da menina levemente para a esquerda e para longe da loça da banheira. Pôde ver em hematoma em sua bochecha direita. Tocou o lábio dela. Viu que ela teve alguma reação. Estacou. Não. Ela não acordou. Puxou suavemente o carnudo lábio da morena para baixo e viu que estava cortado. “Eu disse pra ter cuidade... Aquele filho da puta vai ver só...”, pensou. Os dentes estavam intactos. “Menos mau.”

terça-feira, 1 de novembro de 2011

"Algo que você não consegue entender" - O médico pt.1

    Chegou em casa depois de um dia desgraçado de trabalho. Eram sete da noite, mas, para a sua mente, estava mais para uma da manhã.
    Abriu a porta de casa, que com o seu movimento, arrastou um pedaço de papel branco dobrado ao meio. Entrou, arrastando-o para dentro com o pé direito. Fechou a porta e se baixou para pegá-lo.
    “Entregue”, ele leu ao abrir o bilhete. Estava escrito com letras recortadas de alguma revista.
    Sentiu uma euforia. Estava revigorado. Contente, alegre, nas nuvens, deleitado e mais qualquer outro sinônimo, perfeito ou não. Sentiu que, apesar de ter sofrido durante o seu dia de trabalho na receita federal, ele veio a valer a pena.
    Olhou para a sua casa. Não era um homem de grandes posses, apesar de ser médico. Tinha um bom emprego – era médico - mas a construção da casa e o seu estúdio nos fundos, foram responsáveis pela venda do carro, mas morava sozinho e a casa acabava por não render grande ônus. Era uma boa casa em um bairro mais afastado da cidade. Mas um bairro bom. Classe média alta. Grandes terrenos, grandes casas. A sua, no entanto, era a menor delas. Não se incomodava.
    Sala e cozinha eram divididas apenas por um balcão, dando um aspecto semelhante ao de um bar, com os altos bancos de madeira, mas com almofadas no acento. Boas almofadas. Pretas. Não tinha carpete. Nem no quarto. Gostava, mas era mais difícil de limpar, fora que a poderia acabar manchando, quando algum líquido, por exemplo, caísse em cima. Por isso usava um piso flutuante de madeira clara. Um bege meio creme... Não sabia dizer ao certo que cor era aquilo. Simplesmente achou bonito e escolheu. Tinha uma mania de limpeza e tudo deveria estar impecável. Para não se martirizar, preferiu esse “atalho”.
    A secretaria eletrônica, que estava em cima do rack, ao lado da televisão LCD de 32”, alertava para uma mensagem gravada. Apertou o botão para que ela tocasse, enquanto começava a se despir, desabotoando os primeiros botões da camisa vermelha, sua cor favorita.
    - Oi, Gabriel... - Uma voz rouca e sedutora emanava do alto falante, fazendo aquele “oi” arrastado – aqui é a Patrícia. Vamos combinar algo? Me liga, viu?! Tens o meu número? 8407-845-42. Saudades. Aquele beijo!
    Pensou “Patrícia?...”. Se deteve e pensou um pouco. Sorriu. “Ah, sim... Patrícia... Ôôôô Patrícia...”. Abriu um sorriso largo. Essa era uma loira com quem havia se deitado no fim de semana passado. Um espetáculo de mulher. Com roupa já era uma delícia. Sem então... Foi de difícil abordagem, mas assim que conseguiu, a festa foi feita, e o melhor, no apartamento DELA. Pernas longas e seios fartos e empinados. Não era silicone.
Entrou no banho e ali ficou por vinte minutos. Deixava a água morna bater com força em seus músculos doloridos de um dia cheio. Lembrou do bilhete. Abriu um grande sorriso. Desses de orelha a orelha. “Não foi mesmo um mal dia.”
    Saiu do banho, pegou umas roupas velhas no guarda roupas e vestiu-as. Fazia calor e o dia fora lindo e ensolarado. Agora, a noite trazia uma maravilhosa e confortável brisa marítima. Sentiu isso ao abrir a porta dos fundos de sua casa. Atravessou o pátio e foi até o seu estúdio. Abriu a porta e entrou.