sexta-feira, 20 de abril de 2012

Ira

Um silêncio súbito
Apenas uma imagem em foco
Nada na periferia
As orelhas parecem se ajustar
ao som de uma voz
Voz que parece vir da direita
O mundo, perceptivelmente, gira a sua volta


Nada vermelho
Nada azul
nem preto nem branco
As cores permanecem sendo o que sempre foram
Ficam apenas borradas


Um bolo se forma no estômago
sobe pelo esôfago 
traqueia e laringe
Os pulmões inflam
O abdome expande
A boca se abre


E não há nenhuma técnica milenar mais eficaz para apaziguar
do que o alto volume de uns bons guturais
E os riffs de uma guitarra

quinta-feira, 29 de março de 2012

O universo e a sua faceta

                Simplesmente existe algo na noite que me inspira. Na verdade são vários “algos”.
                O silêncio. Quando se consegue escutar um cachorro latindo a quatorze quadras de distância; o mar rebentando as ondas na beira da praia, naquele constante e eterno, sem um propósito aparente.
                O mistério. O fato de tornar desconhecido e intimidador tudo o que era facilmente distinguido e colorido. Essa simples mudança de tonalidades. Do azul atmosférico ao negro real. Essa é a verdade da noite. Ela mostra como tudo deveria ser. Na verdade, é como tudo realmente é, ao contrário dessa ilusão colorida e insuportável proporcionada por apenas um astro. Gigante para nós. Vital, sim, mas um ilusionista. Para o universo – real faceta da noite – o astro não passa de um infinitésimo. Algo menor que um grão de areia.
                Já são duas e meia e eu sigo com a caneta (preta) na mão, pensando no amor distante, tentado pela pequena garrafa de cachaça, e mergulhado nos portões do cemitério ao lado dos guturais e riffs dos cowboys do inferno.